Habituados a pensar que as crises alimentares - e, de caminho, políticas -, do terceiro mundo estão de alguma forma relacionadas com a superabundância destes produtos no chamado primeiro mundo, percebemos as afirmações de alguns dirigentes mundiais que, em plena crise, vêm dizer preto no branco que ela deve ser vista, sobretudo para África, como uma oportunidade de resolução da fome e da pobreza, que têm parecido congénitas.
Se estas podem ser as boas notícias, e se o nosso irracional optimismo nos permite olhar para a questão de uma iminente crise alimentar noutros pontos do globo que até agora não a têm sofrido como resolúvel no curto ou no médio prazo, não dá para contornar o grande mistério de tentar perceber como chegámos aqui. Como é que uma coisa destas pode estar a acontecer? Como é que numa sociedade de abundância conseguimos o novo-riquismo absurdo de deixar que o essencial falhe para que o acessório ou mesmo o supérfluo se mantenham? Como é que nos conseguimos entreter tanto, e fascinar tanto, com os dispositivos e os mecanismos que inventámos para expandir a nossa condição humana que nos esquecemos que, por debaixo dela, está, e estará sempre, uma imperial natureza humana?
De repente, a comidinha, que nos países do círculo de que, mal ou bem, fazemos parte, tem sido um adquirido indiscutível, reentrou na ordem do dia com preocupação.
É que também os países ricos têm pobres, muito pobres, e o aumento galopante de alguns preços faz prever que a fome poderá ser um fenómeno com que teremos de nos confrontar quotidianamente em vez de, como até agora, se manter circunscrito a bolsas populacionais restritas ou como tema longinquo de povos de que apenas ouvimos falar.
O facto de esta e outras situações de igual gravidade estarem a acontecer tem mesmo que nos obrigar a reflectir.
Mas que raio é que andamos a fazer?
domingo, 9 de setembro de 2012
Regresso às aulas - Continente 2012
Um anúncio que me deu volta à cabeça. É a minha primeira experiência em publicidade.
Não tinha ideia formada, a responsabilidade era muita e o tempo muito curto.
Aproveitando a boleia do tema do Boss AC, tudo se tornou mais fácil.
Adiciono o primeiro esboço manuscrito que serviu de base para o produto final.
sábado, 8 de setembro de 2012
Distracções
A distracção é uma inefável característica que, desgraçadamente, não conseguimos usar a bel-prazer. Era óptimo sermos capazes de nos distrairmos quando a conversa não nos interessa; quando as preocupações, umas quaisquer, das mais sérias às mais mesquinhas, se resolvem instalar em nós, perturbar-nos o sono e transformar os dias em sobressaltos cansativos. Era uma maravilha podermos desligar a atenção, desinvestir os nossos costumeiros interesses e entretermo-nos a ver a chuva a cair, a erva a crescer, as pessoas a passar na rua com a simplicidade dos eventos sem história, que apenas acontecem, sem sombras nem máculas.
Era um previlégio flutuar no tempo e na vida sem necessidade de concentrações intensas e doloridas, sem esforços permanentes para fazer render mais, ou melhor, qualquer capacidade que nos dá de comer ou nos propicia um espaço de existência que consideramos adequado.
Queríamos todos ser competentes a distanciar pensamento e emoções que nos afligem.
Ás vezes, irritados com a hiperatenção que nos habita e nos coloca em zonas de tensão e contracção como se tudo à nossa volta fosse muito importante, muito definitivo; como se tudo o que nos cerca tivesse de ser minuciosamente observado e arquivado em memória, clamamos por um qualquer estado de ignorância, embotamento ou distracção que nos permitisse a entrada numa imaginária zona de absoluta tranquilidade.
Mesmo que critiquemos os que nunca prestam atenção, os que nunca dão por coisa alguma, os que parecem viver paredes-meias com uma outra realidade mais agradável ou colorida, os que perguntam constantemente o que se passa para no momento seguinte já estarem longíssimo e alheados, temos sempre um momento em que suspiramos por uma genuína capacidade de desleixo selectivo e deliberado.
Quando nos zangamos, o que para quase todos é uma circunstância muito mais recorrente do que gostariamos, juramos a pés juntos que vamos deixar de nos ralar; que vamos adoptar uma atitude leve e descontraída; que no próximo milénio (ou pelo menos na próxima semana) nos vamos conseguir desligar de tudo o que nos mantém tensos, inquietos, responsáveis e muito preocupados.
Desgraçadamente, parece que estamos condenados a distrairmo-nos quando não queremos com o que não dá jeito, não parece útil ou não resulta frutuoso.
Era um previlégio flutuar no tempo e na vida sem necessidade de concentrações intensas e doloridas, sem esforços permanentes para fazer render mais, ou melhor, qualquer capacidade que nos dá de comer ou nos propicia um espaço de existência que consideramos adequado.
Queríamos todos ser competentes a distanciar pensamento e emoções que nos afligem.
Ás vezes, irritados com a hiperatenção que nos habita e nos coloca em zonas de tensão e contracção como se tudo à nossa volta fosse muito importante, muito definitivo; como se tudo o que nos cerca tivesse de ser minuciosamente observado e arquivado em memória, clamamos por um qualquer estado de ignorância, embotamento ou distracção que nos permitisse a entrada numa imaginária zona de absoluta tranquilidade.
Mesmo que critiquemos os que nunca prestam atenção, os que nunca dão por coisa alguma, os que parecem viver paredes-meias com uma outra realidade mais agradável ou colorida, os que perguntam constantemente o que se passa para no momento seguinte já estarem longíssimo e alheados, temos sempre um momento em que suspiramos por uma genuína capacidade de desleixo selectivo e deliberado.
Quando nos zangamos, o que para quase todos é uma circunstância muito mais recorrente do que gostariamos, juramos a pés juntos que vamos deixar de nos ralar; que vamos adoptar uma atitude leve e descontraída; que no próximo milénio (ou pelo menos na próxima semana) nos vamos conseguir desligar de tudo o que nos mantém tensos, inquietos, responsáveis e muito preocupados.
Desgraçadamente, parece que estamos condenados a distrairmo-nos quando não queremos com o que não dá jeito, não parece útil ou não resulta frutuoso.
sexta-feira, 7 de setembro de 2012
A mentira
Ensinamos às crianças, de pequeninas que não se mente. Que mentir é feio, que mentir é mau, que mentir nos desgosta e, em última análise, é passível de punição.
Como de costume, umas aprendem melhor que outras aquilo que pretendemos ensinar. Ou seja, uns aprendem a evitar a mentira, outros a mentir bem e muitos mais aprendem a mentir quando lhes dá jeito.
Os que aprendem a evitar a mentira, em crescidos continuam a corar e a ficar atrapalhados, a bocejar e a baixar os olhos, a emitir sinais antagónicos sempre que as palavras os encaminham para fugas àquilo que eles consideram ser a verdade dos factos.
Mentem na mesma, se quisermos ser rigorosos e precisos, mas mentem vitimizados pelas circunstâncias e aperreados por uma consciência constrangida. Movem-se, por isso, naquela estreita faixa do não dito, entre a omissão e o desvio, a mudança de conversa e as reticências tão pesads que quase se vêem. Mentem triste e atabalhoadamente, pedindo desculpas silenciosas.
Os que aprendem a mentir bem - que, acrescente-se, não são muitos - vestem o relativismo das coisas como uma segunda pele. Mentir bem quer aqui dizer não se desmascarar a cada passo nem inventar histórias inverosímeis.
Quer dizer, ser convicente e sentido, emocional e emocionado. Os bons mentirosos não são, por isso, os grandes mentirosos. Usam a mentira como lhes convém, mas parcimoniosamente e a propósito. Dir-se-ia que têm um sentido político do que deve ser dito e legitimam cada uma das suas falas com à vontade e desembaraço. Mentem artisticamente, o que, pela raridade, quase têm mérito.
A maioria de nós mente quando dá jeito e, por isso, moderadamente.
É uma gama demasiado ampla onde cabem as desculpas ocasionais, que podem ir ao esfarrapamento óbvio até às declarações de principios mais definitivas; as mentiras piedosas; a ocultação da vergonha e segredos; a defesa dos interesses importantes, e por aí fora. Sendo ampla, não é uma categoria muito original nem muito interessante, de tão estafada e conhecida.
De forma extremada e patológica existem ainda os que têm uma relação com a factualidade e, por isso, mentem compulsivamente e, por isso, mentem compulsivamente ou, pelo contrário nuncam mentem. A estes, como se percebe, não se pode responsabilizar pela manipulação que fazem da verdade.
Como de costume, umas aprendem melhor que outras aquilo que pretendemos ensinar. Ou seja, uns aprendem a evitar a mentira, outros a mentir bem e muitos mais aprendem a mentir quando lhes dá jeito.
Os que aprendem a evitar a mentira, em crescidos continuam a corar e a ficar atrapalhados, a bocejar e a baixar os olhos, a emitir sinais antagónicos sempre que as palavras os encaminham para fugas àquilo que eles consideram ser a verdade dos factos.
Mentem na mesma, se quisermos ser rigorosos e precisos, mas mentem vitimizados pelas circunstâncias e aperreados por uma consciência constrangida. Movem-se, por isso, naquela estreita faixa do não dito, entre a omissão e o desvio, a mudança de conversa e as reticências tão pesads que quase se vêem. Mentem triste e atabalhoadamente, pedindo desculpas silenciosas.
Os que aprendem a mentir bem - que, acrescente-se, não são muitos - vestem o relativismo das coisas como uma segunda pele. Mentir bem quer aqui dizer não se desmascarar a cada passo nem inventar histórias inverosímeis.
Quer dizer, ser convicente e sentido, emocional e emocionado. Os bons mentirosos não são, por isso, os grandes mentirosos. Usam a mentira como lhes convém, mas parcimoniosamente e a propósito. Dir-se-ia que têm um sentido político do que deve ser dito e legitimam cada uma das suas falas com à vontade e desembaraço. Mentem artisticamente, o que, pela raridade, quase têm mérito.
A maioria de nós mente quando dá jeito e, por isso, moderadamente.
É uma gama demasiado ampla onde cabem as desculpas ocasionais, que podem ir ao esfarrapamento óbvio até às declarações de principios mais definitivas; as mentiras piedosas; a ocultação da vergonha e segredos; a defesa dos interesses importantes, e por aí fora. Sendo ampla, não é uma categoria muito original nem muito interessante, de tão estafada e conhecida.
De forma extremada e patológica existem ainda os que têm uma relação com a factualidade e, por isso, mentem compulsivamente e, por isso, mentem compulsivamente ou, pelo contrário nuncam mentem. A estes, como se percebe, não se pode responsabilizar pela manipulação que fazem da verdade.
sábado, 1 de setembro de 2012
Oswaldo Montenegro - Lume de Estrelas
Foi com enorme regozijo que recebi o convite deste "irmão" brasileiro para lhe fazer duas letras para musicar, com vista ao seu novo CD a editar antes do Natal.
O Oswaldo Montenegro é um "monstro" da música brasileira e fico feliz por se ter lembrado de mim.
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