sexta-feira, 5 de outubro de 2012

II Gala de Canções do Zeca


Não imaginam a satisfação que meu deu apresentar esta Gala de Canções do Zeca Afonso, em parceria com a Ana Cristina Videira.
Deram-me ainda o previlégio de declamar um dos poemas do Zeca (Os Eunucos).

O tempo e as máquinas

Se são muitos os pais que se preocupam com o uso que os seus filhos, infantes e adolescentes, dão às horas que passam nos seus computadores, são bastante menos os que se ocupam, de facto, com o assunto.
A maioria destes pais, provavelmente, nem sabe bem o que pode ou deve fazer nem quais os limites que tem de estabelecer ao uso de um instrumento tão propagado e louvado.
Exactamente porque o uso destes aparelhos aparece envolto numa aura de benefícios imensos, sem os quais, aliás, parece não ser possivel crescer e progredir, está fora de causa responsabilizá-los pelos usos indevidos a que podem ser sujeitos. Aparentemente, os computadores transformaram-se em utensílios básicos de estudo e de conhecimento com inevitáveis efeitos secundários, tão descritos quanto pouco avaliados. Ainda assim, todos sabem nomear os tais usos indevidos que variam entre as horas a jogar e as horas de eventuais contactos considerados como perniciosos e "desencaminhadores". Como pano de fundo dos maiores medos parentais, aparece o acesso a sítios em que o sexo seja o motivo de encontro e conversa, com as inerentes fantasias, muito promovidas por séries de televisão, de que o respectivo rebento se cruze com um serial killer, com uma organização pedófila, ou então simplesmente com um exibicionista versão ciber que, ainda assim, destapa uma diferente espécie de gabardina.
Com todas as vantagens e desvantagens das maquinetas, tenho para mim que nem vale a pena complicar nem desistir de estabelecer limites neste campo como em todos os outros.
O maior problemas do uso dos computadores pelos mais novos não é o que lá se encontra, porque apenas concentra e espelha auilo que existe, e também se encontra, nos outros mundos menos virtuais. O maior problema é mesmo o tempo despendido: a teclar, a jogar, a pesquisar, a fazer o que quer que seja que se aproxime da obsessão e diminua de forma significativa o investimento no mundo que gira à volta.
Apenas porque a vida é sempre, aqui e agora, e o virtual um espaço de recurso, inverter os termos da valorização facilita o que mais tememos: ficar isolados e descobrir aí um enorme sentimento de solidão.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Credibilidade

A credibilidade não é, definitivamente, um valor do nosso tempo.
A bem da verdade, nem sei mesmo se alguma vez a credibilidade chegou a ser um valor. Tudo o que se sabe, tudo o que a história passada nos diz, é que na vida, tal como dizem que acontece na política, é muito mais importante parecer do que ser. A responsabilidade da coisa até pode ser dos meios de comunicação actuais, que se entretêm no interessante exercício de fazer narrativas alternativas àquelas que quem tem imagens a vender se esforça por manter.
Aliás. parece que isto se aplica à credibilidade como se aplica a uma extensa lista de virtudes e características que se devem ter, que se deseja que os amigos, os filhos e as pessoas todas com quem se priva de perto tenham. Pode ser que seja para bem delas, mas também pode ser que, lá no fundo, acreditemos que existem estatutos que se obtêm por contágio e proximidade e, nessa medida, se nos colem à pele e não nos deixem cair em tentação.
A credibilidade, como todos os valores, tem um enorme inconveniente de tender para o absoluto. Ou seja, ou se é credível ou não se é. Sem meias tintas, sem  coloridos ambíguos, sem aquela enorme zona de entremeio onde nos costumamos mover e ser. Como resultado, os vulgares mortais que conseguem ser credíveis nuns tantos aspectos e absolutamente para esquecer noutros tantos, quando expostos à enorme tentação de parecerem perfeitos, caem como patos. Limam as arestas que lhes davam graça, vestem as cintas e os corpetes dos avôs, fazem todos os liftings que podem e a que têm direito na santa ingenuidade que ninguém dá por isso.
O resultado até poderia ser gravoso, mas, sendo dado que vivemos no tempo e no lugar em que vivemos, quer dizer sem interesse na história nem investimento na memória, a credibilidade ou a falta dela transforma-se apenas em mais um tema, um fait-divers que se comenta de passagem e se arruma numa prateleira alta, muito alta.
Para uns, porque o dia-a-dia aperta e exige demais, para outros, porque os próprios telhados de vidro são facilmente atingíveis, para mais uns tantos, porque há o risco de perder alguma coisa importante, para os restantes, porque o que não é um valor, não o é, e assunto arrumado.
À laia de conclusão, advertência ou exortação, só pode ficar o convite ao humor, ao recurso à capacidade de rir de nós próprios, dos outros e do curioso e atabalhoado mundo em que vamos vivendo. Quem não tiver isso como recurso arrisca-se a sofrer demais, a descrer demais, a suspirar por outros tempos que, provavelmente, nunca foram.

Nelia LIVE - Praia


Tal como já afirmei na minha página do facebook não me envergonho de ter escrito esta letra para este tema cantado pela Nélia. Possuo neste meu blogue outro tema escrito por mim para esta artista luso-americana (um fado/canção).

sábado, 22 de setembro de 2012

Jorge Fernando & Sam The Kid - Pois é

Desorientados

Um dos temas enrodilhados que se aborda uma e outra vez chegando-se sempre a uma espécie de beco sem saída é o da gestão do dinheiro, ou, melhor, da falta de dinheiro.
É público e notório que há menos dinheiro a circular. Mesmo que os jornais e revistas mais rosados transformem em assunto o estilo de vida de alguns jogadores de futebol, uns tantos ex-políticos e um punhado raquítico de empresários de sucesso, o facto é que os cidadãos comuns vão deixando pistas sucessivas sobre o desconforto crescente de tentarem viver como já viveram noutros tempos, com bastante menos dinheiro.
Mesmo os comentários jocosos sobre "onde está a crise?" que se largam a propósito das longas filas de trânsito para as praias ou para concertos rock, dos engarrafamentos aeroportuários relacionados com jogos de futebol ou férias de Verão, não chegam para tapar a sensação de empobrecimento e degradação. São os milhares de casas e escritórios para vender ou alugar, ainda a preços desrealizados, que dão às povoações um ar fantasma; são os espaços públicos malcuidados como se tivessem sido esquecidos; são as lojas cheias de mercadoria a saldar e a liquidar fora de tempo ou, então, aslojas vazias com dizeres "venda" ou "trespassa", como se ainda fosse possível. São os restaurantes vazios a partir de uma certa altura do mês, ou ocupados a alimentar com higiénicas e acessíveis sopinhas e saladas os almoços de meio mundo; é até a bendita lei da proibição de fumar que legitima ocasionais cravanços e facilita o deixar de fumar saudável e muito mais barato.
No meio da situação e dos palpites e remédios que dirigentes e comentadores vão invocando como bons, apareceu noutro dia uma ideia peregrina que fez manchete, mereceu atenção e, de caminho, nos deu uma razoável ideia do nível de desorientação de quem é suposto manter o rumo das coisas.
A lógica é ensandecida e esmagante: alguém vai ter que pagar!
Mesmo que seja uma ideia absurda, mais uma, é também mais um prego cravado na cadeia continuada e teimosa de medidas extravagantes que eram para ser e não foram, mas que se tivesse jeito, se tivessem cabimento e sentido, se tivessem vingado e sido implementadas, seriam espertas e muito eficazes. Clarifica, bem, o que é a desorientação e explica de forma magistral o "desenrascanço" nacional que arranja um problema para resolver o anterior e assim sucessivamente.