sábado, 24 de janeiro de 2015

A minha fonte de inspiração? As pessoas!


A crónica é um género de escrita ainda hoje de difícil definição.
Começou por ter como tema acontecimentos históricos narrados por ordem cronológica e foi-se transformando, com o evoluir dos tempos, em textos personalizados de comentário e análise das mais diversas situações do quotidiano. Um quotidiano abordado a partir duma perspectiva pessoal em que a formação académica, prática profissional ou conhecimentos específicos do cronista são relevantes, quer no estilo adoptado, quer nos conteúdos escolhidos.
Por se tratar de textos curtos publicados em meios de comunicação social de grande divulgação e terem uma periodicidades intensa, têm habitualmente uma linguagem simples, despretensiosa e mesmo colonial.
Nem sempre o fiz, admito!
Contemporaneamente, a crónica tende a ser mais dissertativa do que narrativa, quer dizer, preocupa-se mais em discorrer ou mostrar um ponto de vista ou uma perspectiva particular sobre um acontecimento, um facto ou até um sentimento, do que descrevê-lo simplesmente.
Vem este arrazoado a propósito de ter em meu poder - umas publicadas e outras por editar - mais de mil crónicas.
Ao longo de tantos anos a escrever, dizem-me que construo textos que interessam às pessoas mas também que são úteis. Dizem-me também, que aquilo que escrevo suscita reacções, identificações, reflexões e até decisões relevantes de quem as lê. Fico imensamente feliz, por isso!
Deixem-me partilhar convosco a minha grande fonte de inspiração: as pessoas.
As pessoas com quem me cruzo na vida social, laboral e na rua. O que as pessoas dizem, as suas interrogações, preocupações e reflexões. As suas distorções e inquietações, as suas mágoas e vitórias, as suas queixas, as suas formas de lidar com os problemas e resolvê-los, os seus momentos de satisfação e gloria.
São as pessoas vulgares, as suas sensações, emoções e sentimentos que tento captar e trazer até vós na esperança de que nas costas dos outros vejamos as nossas.




Joaquim Maneta Alhinho

terça-feira, 21 de outubro de 2014

A fantasia da fuga

Uma das fantasias recorrentes das pessoas cansadas, fartas da vida que levam e de uma sequência de dias sem graça nem luz, é a de poderem fugir.
A fantasia da fuga não é só de crianças que se sentem mal-amadas ou de adolescentes zangados com limites que lhes tentam impor.
Também não tem que ver com aqueles que assumidamente querem partir em busca de uma vida melhor, de maior riqueza ou perseguindo um sonho que tem um nome e um destino certo.
Esta ideia, esta ida em fuga para um lugar distante, obedece ao pressuposto de que há um sítio algures em que é possível estar melhor ou até bem. Como se a distância ou a geografia encerrassem uma qualquer magia curandeira.
Os lugares de refúgio idealizados, contra todas as expectativas, não são praias turísticas nas Caraíbas, cidades futuristas, estâncias requintadas ou grandes metrópoles de encontro de culturas.
Os lugares de fuga, de reparação de dores íntimas ou de recuperação de sentidos de vida costumam ser sítios longínquos, não tanto pela geografia, mas sobretudo pela distância cultural, pelo arcaísmo estrutural ou pelo estado de desgraça geral.
Fugir para longe, procurar uma outra forma de estar é, paradoxalmente, quase sempre feito no sentido da busca de mundos pouco desenvolvidos e quase sem recursos.
Como se terras sofridas e gentes de baixa condição de vida permitissem valorizar o que se tem, o que se é, e passa despercebido ou é ignorado entre iguais.
Enquanto os que querem partir para um sítio determinado em busca de riqueza ou esplendor partem mesmo, os outros sonham acordados, imaginam incansavelmente e quedam-se no mesmo lugar, ameaçando a fuga, invocando o cansaço, inventando razões para ficar, descobrindo legitimidades claras para justificar partir.
Ainda assim, a fantasia da fuga, a ideia persistente de que há sempre uma porta de saída, um sítio que espera por nós e em que tudo ficará bem para sempre, não é uma inutilidade entre outras.
Pelo contrário, é o acreditar – ainda que leve, muito levemente – que se permanece porque se quer, que mais um dia ou dois talvez não façam grande diferença no eventual grande destino que lá longe se poderia ter, e serve de anteparo à frustração e de defesa a maiores depressões.
É sempre bom ter um lugar ou um sonho de recurso.


Joaquim Maneta Alhinho

domingo, 24 de agosto de 2014

Não somos folhas ao vento...


Diz-se que a vida moderna é, por demais, cansativa e stressante. E é.
Mesmo sendo verdade que a maioria de nós não tem de se confrontar com esforços físicos duríssimos, o que cansa e desgasta costuma andar à volta de uma vaga sensação de sobressalto como se houvesse uma qualquer urgência em pano de fundo ou como se tivéssemos esquecido qualquer coisa que sabemos ser importante.
Com poucas excepções, parece que as pessoas se dividem entre os que não têm tempo para nada e os que não sabem o que hão-de fazer com o tempo.
Os primeiros, os que não têm tempo, porque o rol de tarefas é mais extenso do que aquilo que conseguem cumprir, com frequência mergulham numa calda de irritação em que quaisquer contratempos ganham foros de problema. Os atrasos, as tarefas proteladas, as coisas que não funcionam ou funcionam mal, o que não se faz e se devia ter feito, vão-se acumulando numa espécie de vertigem de incapacidade e descontrolo, suficiente para transformar os dias em embates penosos.
Acorda-se cansado, corre-se o que se pode durante todo o dia e chega-se à noite exausto e com a sensação de que no dia seguinte será exactamente igual.
Os outros, os que lhes sobra tempo, por não trabalham por reforma ou desemprego, ou os que não têm família, grandes compromissos ou grandes interesses, frequentemente parecem disponíveis para complicar pequenas coisas em que os outros não reparam ou envolver-se, com excessiva ansiedade, em tarefas, relações ou causas que se transformam também para climas de frustração, incompletude ou incompreensão. Os dias correm também tensos, também cinzentos.
Uns e outros como que esperam que, por magia, tudo se componha. Que a calma e a tranquilidade os venham possuir. Que as coisas parem de acontecer ou comecem a acontecer de um outro modo mais satisfatório e gratificante.
Sendo importante todo e qualquer acontecimento de vida, o facto é que não é suposto que sejamos folhinhas ao vento nem caixa-de-ressonância do que se passa à nossa volta.
Suposto mesmo é que busquemos e consigamos activamente não ceder a contágios emocionais, não nos deixarmos arrastar pelas circunstâncias e usarmos tudo o que aprendemos, desde sempre, para fazer aquilo que se acredita que as pessoas querem: viver o melhor possível.


Joaquim Maneta Alhinho

domingo, 20 de julho de 2014

Os filhos são pais da morte dos seus pais


 Há uma quebra na história familiar onde as idades se acumulam e se sobrepõem e a ordem natural não tem sentido: é quando o filho se torna pai do seu pai.
É quando o pai envelhece e começa a trotear como se estivesse dentro de uma névoa. Lento e impreciso.
É quando aquele pai que segurava com força a nossa mão já não tem como se levantar sozinho. É quando aquele pai, outrora firme e intransponível, enfraquece de vez e demora o dobro do tempo para sair do seu lugar.
É quando aquele pai, que antigamente mandava e ordenava, hoje só suspira, só geme, só procura onde é a porta e onde é a janela - tudo é corredor, tudo é longe.
É quando aquele pai, antes disponível e trabalhador, fracassa ao tirar a sua própria roupa e não se lembra dos medicamentos que tem para tomar.
E nós, como filhos, não faremos outra coisa senão trocar de papel e aceitar que somos responsáveis por aquela vida. Aquela vida que nos gerou depende da nossa vida para morrer em paz.
Todo o filho é pai da morte de seu pai.
Ou, quem sabe, a velhice do pai e da mãe seja curiosamente a nossa última gravidez. O nosso último ensinamento. Fase para devolver os cuidados que nos foram confiados ao longo de décadas, de retribuir o amor com a amizade da escolta.
E assim, como mudamos a casa para receber quem nasce, tapando tomadas e colocando cercas, vamos alterar a rotina dos móveis para criar espaços para os nossos pais.
Uma das primeiras transformações acontece na casa de banho.
Seremos pais de nossos pais na hora de colocar uma barra de apoio no chuveiro.
A barra é emblemática. A barra é simbólica. A barra é inaugurar um cotovelo das águas.
Porque o chuveiro, simples e refrescante, agora é um temporal para os pés idosos dos nossos protectores. Não podemos abandoná-los em nenhum momento, inventaremos os nossos braços nas paredes.
A casa de quem cuida dos pais tem os braços dos filhos pelas paredes. Os nossos braços estarão espalhados sob a forma de corrimões.
Envelhecer é andar de mãos dadas com os objectos, envelhecer é subir escadas mesmo sem degraus.
Seremos estranhos na nossa residência. Observaremos cada detalhe com pavor e desconhecimento, com dúvida e preocupação. Seremos arquitectos, decoradores e engenheiros frustrados. Como não previmos que os pais um dia adoecessem e precisassem de nós?
Feliz do filho que é pai do seu pai antes da morte e triste do filho que aparece somente no funeral (quando acontece…) e não se despede dele um pouco em cada dia.
No hospital, a enfermeira fazia a manobra da cama para a maca, repondo os lençóis, quando o Zé gritou:
— Deixe que eu ajudo…
Reuniu todas as suas forças e pegou pela primeira vez o seu pai ao colo.
Colocou o rosto do seu pai contra o seu peito.
Ajeitou nos seus ombros o pai consumido pelo cancro: pequeno, enrugado, frágil, tremendo.
Ficou nos seus braços um bom tempo, um tempo equivalente à sua infância, um tempo equivalente à sua adolescência, um tempo interminável.
Embalou o pai de um lado para o outro.
Aninhou o pai.
Acalmou o pai.
E apenas dizia, sussurrando:
— Eu estou aqui, estou aqui, pai!
O que um pai quer ouvir no fim da sua vida é que o seu filho está ali.




Joaquim Maneta Alhinho

sábado, 28 de junho de 2014

A dor do abandono

Era uma manhã de sol quente e céu azul, quando o caixão contendo um corpo sem vida foi baixado à sepultura. De quem se trata? Quase ninguém sabe. Poucas pessoas acompanham o féretro. Ninguém chora. Ninguém sentirá a falta dela. Ninguém para dizer adeus ou até breve.
Depois que o corpo desocupou o quarto do asilo, onde aquela mulher passou boa parte da sua vida, a responsável pela limpeza encontrou numa gaveta ao lado da cama, umas anotações. Um diário sobre a dor... Sobre a dor que ela sentiu por ter sido abandonada pela família num lar para idosos... Talvez o sofrimento fosse muito maior, mas as palavras só permitem extravasar uma parte desse sentimento, gravado nalgumas frases:
Onde andarão os meus filhos? Aquelas crianças sorridentes que embalei no meu colo, alimentei com o meu leite, cuidei com tanto zelo, onde estarão? Estarão tão ocupados que não possam visitar-me, ao menos para dizer olá, mãe? Ah!... Se eles soubessem como é triste sentir a dor do abandono... A mais deprimente solidão... Se ao menos eu pudesse andar...
Mas dependo das mãos generosas destas raparigas que me levam todos os dias para apanhar um pouco de sol no jardim... Jardim que já conheço como a palma da minha mão.
Os anos passam e os meus filhos não entram por aquela porta, de braços abertos, para me envolverem com carinho, com afectos...
Os dias passam... E com eles a esperança vai-se... No começo, a esperança alimentava-me, ou eu a alimentava, não sei... Mas, agora... Como esquecer que fui esquecida? Como engolir esse nó que teima em ficar na minha garganta, dia após dia?
Todas as lágrimas que chorei não foram suficientes para desfaze-lo... Sinto que o crepúsculo desta existência se aproxima... Queria saber dos meus filhos... Dos meus netos... Será que ao menos ainda se lembram de mim? A esperança, agora, parece estar atrelada aos minutos... Que a arrastam sem misericórdia para bem longe de mim...
Às vezes, em sonhos, vejo um lindo jardim, que transcende os muros deste albergue e se abre em caminhos floridos que levam a outra realidade, onde braços afectuosos estão à minha espera com amor e alegria... Mas, quando acordo, é a minha realidade que eu vejo... Que eu vivo... Que eu sinto... Um dia alguém me disse que a vida não se acaba num túmulo escuro e silencioso... Que a vida continua após a morte, de uma outra forma... Mas com certeza a minha matéria, a minha mente, o meu eu, desta vida que vivo agora, com o nome que tenho, nunca mais existirá! E quando a morte chegar, só vai restar a saudade que com o passar do tempo se ameniza... (se é que alguém vai sentir saudades minhas, já que não sentiram enquanto ainda estou viva neste asilo...)
Sinto que a minha hora está a chegar... Depois, quando eu partir, gostaria que alguém encontrasse estas minhas anotações e as divulgasse. E que elas pudessem tocar os corações dos filhos que internam os seus pais em asilos e nunca os visitam... Que eles possam saber um pouco sobre a dor de alguém que sente o que é ser abandonado... Pensem que a cada pai e a cada mãe Deus perguntará: O que fizestes do filho confiado à vossa guarda? E aos filhos: O que fizestes aos vossos pais?



Joaquim Maneta Alhinho