terça-feira, 2 de dezembro de 2014
quarta-feira, 5 de novembro de 2014
terça-feira, 21 de outubro de 2014
A fantasia da fuga
Uma das fantasias recorrentes
das pessoas cansadas, fartas da vida que levam e de uma sequência de dias sem
graça nem luz, é a de poderem fugir.
A fantasia da fuga não é só
de crianças que se sentem mal-amadas ou de adolescentes zangados com limites
que lhes tentam impor.
Também não tem que ver com
aqueles que assumidamente querem partir em busca de uma vida melhor, de maior
riqueza ou perseguindo um sonho que tem um nome e um destino certo.
Esta ideia, esta ida em fuga
para um lugar distante, obedece ao pressuposto de que há um sítio algures em
que é possível estar melhor ou até bem. Como se a distância ou a geografia
encerrassem uma qualquer magia curandeira.
Os lugares de refúgio
idealizados, contra todas as expectativas, não são praias turísticas nas
Caraíbas, cidades futuristas, estâncias requintadas ou grandes metrópoles de
encontro de culturas.
Os lugares de fuga, de
reparação de dores íntimas ou de recuperação de sentidos de vida costumam ser
sítios longínquos, não tanto pela geografia, mas sobretudo pela distância
cultural, pelo arcaísmo estrutural ou pelo estado de desgraça geral.
Fugir para longe, procurar
uma outra forma de estar é, paradoxalmente, quase sempre feito no sentido da
busca de mundos pouco desenvolvidos e quase sem recursos.
Como se terras sofridas e
gentes de baixa condição de vida permitissem valorizar o que se tem, o que se
é, e passa despercebido ou é ignorado entre iguais.
Enquanto os que querem partir
para um sítio determinado em busca de riqueza ou esplendor partem mesmo, os
outros sonham acordados, imaginam incansavelmente e quedam-se no mesmo lugar,
ameaçando a fuga, invocando o cansaço, inventando razões para ficar,
descobrindo legitimidades claras para justificar partir.
Ainda assim, a fantasia da fuga,
a ideia persistente de que há sempre uma porta de saída, um sítio que espera
por nós e em que tudo ficará bem para sempre, não é uma inutilidade entre
outras.
Pelo contrário, é o acreditar
– ainda que leve, muito levemente – que se permanece porque se quer, que mais
um dia ou dois talvez não façam grande diferença no eventual grande destino que
lá longe se poderia ter, e serve de anteparo à frustração e de defesa a maiores
depressões.
É sempre bom ter um lugar ou
um sonho de recurso.
Joaquim Maneta Alhinho
domingo, 24 de agosto de 2014
Não somos folhas ao vento...
Diz-se que a vida moderna é,
por demais, cansativa e stressante. E é.
Mesmo sendo verdade que a
maioria de nós não tem de se confrontar com esforços físicos duríssimos, o que
cansa e desgasta costuma andar à volta de uma vaga sensação de sobressalto como
se houvesse uma qualquer urgência em pano de fundo ou como se tivéssemos
esquecido qualquer coisa que sabemos ser importante.
Com poucas excepções, parece
que as pessoas se dividem entre os que não têm tempo para nada e os que não
sabem o que hão-de fazer com o tempo.
Os primeiros, os que não têm
tempo, porque o rol de tarefas é mais extenso do que aquilo que conseguem
cumprir, com frequência mergulham numa calda de irritação em que quaisquer
contratempos ganham foros de problema. Os atrasos, as tarefas proteladas, as
coisas que não funcionam ou funcionam mal, o que não se faz e se devia ter
feito, vão-se acumulando numa espécie de vertigem de incapacidade e
descontrolo, suficiente para transformar os dias em embates penosos.
Acorda-se cansado, corre-se o
que se pode durante todo o dia e chega-se à noite exausto e com a sensação de
que no dia seguinte será exactamente igual.
Os outros, os que lhes sobra
tempo, por não trabalham por reforma ou desemprego, ou os que não têm família,
grandes compromissos ou grandes interesses, frequentemente parecem disponíveis
para complicar pequenas coisas em que os outros não reparam ou envolver-se, com
excessiva ansiedade, em tarefas, relações ou causas que se transformam também
para climas de frustração, incompletude ou incompreensão. Os dias correm também
tensos, também cinzentos.
Uns e outros como que esperam
que, por magia, tudo se componha. Que a calma e a tranquilidade os venham
possuir. Que as coisas parem de acontecer ou comecem a acontecer de um outro
modo mais satisfatório e gratificante.
Sendo importante todo e
qualquer acontecimento de vida, o facto é que não é suposto que sejamos
folhinhas ao vento nem caixa-de-ressonância do que se passa à nossa volta.
Suposto mesmo é que busquemos
e consigamos activamente não ceder a contágios emocionais, não nos deixarmos
arrastar pelas circunstâncias e usarmos tudo o que aprendemos, desde sempre,
para fazer aquilo que se acredita que as pessoas querem: viver o melhor
possível.
Joaquim Maneta Alhinho
domingo, 20 de julho de 2014
Os filhos são pais da morte dos seus pais
Há uma quebra na
história familiar onde as idades se acumulam e se sobrepõem e a ordem natural
não tem sentido: é quando o filho se torna pai do seu pai.
É quando o pai envelhece e começa a trotear como se estivesse
dentro de uma névoa. Lento e impreciso.
É quando aquele pai que segurava com força a nossa mão já
não tem como se levantar sozinho. É quando aquele pai, outrora firme e intransponível,
enfraquece de vez e demora o dobro do tempo para sair do seu lugar.
É quando aquele pai, que antigamente mandava e ordenava,
hoje só suspira, só geme, só procura onde é a porta e onde é a janela - tudo é
corredor, tudo é longe.
É quando aquele pai, antes disponível e trabalhador,
fracassa ao tirar a sua própria roupa e não se lembra dos medicamentos que tem para
tomar.
E nós, como filhos, não faremos
outra coisa senão trocar de papel e aceitar que somos responsáveis por aquela
vida. Aquela vida que nos gerou depende da nossa vida para morrer em paz.
Todo o filho é pai da morte de seu pai.
Ou, quem sabe, a velhice do pai e da mãe seja curiosamente a
nossa última gravidez. O nosso último ensinamento. Fase para devolver os
cuidados que nos foram confiados ao longo de décadas, de retribuir o amor com a
amizade da escolta.
E assim, como mudamos a casa para receber quem nasce,
tapando tomadas e colocando cercas, vamos alterar a rotina dos móveis para
criar espaços para os nossos pais.
Uma das primeiras transformações acontece na casa de banho.
Seremos pais de nossos pais na hora de colocar uma barra de
apoio no chuveiro.
A barra é emblemática. A barra é simbólica. A barra é
inaugurar um cotovelo das águas.
Porque o chuveiro, simples e refrescante, agora é um
temporal para os pés idosos dos nossos protectores. Não podemos abandoná-los em
nenhum momento, inventaremos os nossos braços nas paredes.
A casa de quem cuida dos pais tem os braços dos filhos pelas
paredes. Os nossos braços estarão espalhados sob a forma de corrimões.
Envelhecer é andar de mãos
dadas com os objectos, envelhecer é subir escadas mesmo sem degraus.
Seremos estranhos na nossa
residência. Observaremos cada detalhe com pavor e desconhecimento, com dúvida e
preocupação. Seremos arquitectos, decoradores e engenheiros frustrados. Como
não previmos que os pais um dia adoecessem e precisassem de nós?
Feliz do filho que é pai do seu pai antes da morte e triste
do filho que aparece somente no funeral (quando acontece…) e não se despede
dele um pouco em cada dia.
No hospital, a enfermeira fazia a manobra da cama para a maca,
repondo os lençóis, quando o Zé gritou:
— Deixe que eu ajudo…
Reuniu todas as suas forças e pegou pela primeira vez o seu
pai ao colo.
Colocou o rosto do seu pai contra o seu peito.
Ajeitou nos seus ombros o pai consumido pelo cancro:
pequeno, enrugado, frágil, tremendo.
Ficou nos seus braços um bom tempo, um tempo equivalente à
sua infância, um tempo equivalente à sua adolescência, um tempo interminável.
Embalou o pai de um lado para o
outro.
Aninhou o pai.
Acalmou o pai.
E apenas dizia, sussurrando:
— Eu estou aqui, estou aqui, pai!
O que um pai quer ouvir no fim da sua vida é que o seu filho
está ali.
Joaquim Maneta Alhinho
sábado, 28 de junho de 2014
A dor do abandono
Era uma manhã de sol quente e
céu azul, quando o caixão contendo um corpo sem vida foi baixado à sepultura.
De quem se trata? Quase ninguém sabe. Poucas pessoas acompanham o féretro.
Ninguém chora. Ninguém sentirá a falta dela. Ninguém para dizer adeus ou até
breve.
Depois
que o corpo desocupou o quarto do asilo, onde aquela mulher passou boa parte da
sua vida, a responsável pela limpeza encontrou numa gaveta ao lado da cama,
umas anotações. Um diário sobre a dor... Sobre a dor que ela sentiu por ter
sido abandonada pela família num lar para idosos... Talvez o sofrimento fosse
muito maior, mas as palavras só permitem extravasar uma parte desse sentimento,
gravado nalgumas frases:
Onde andarão os meus filhos?
Aquelas crianças sorridentes que embalei no meu colo, alimentei com o meu
leite, cuidei com tanto zelo, onde estarão? Estarão tão ocupados que não possam
visitar-me, ao menos para dizer olá, mãe? Ah!... Se eles soubessem como é
triste sentir a dor do abandono... A mais deprimente solidão... Se ao menos eu
pudesse andar...
Mas dependo das mãos
generosas destas raparigas que me levam todos os dias para apanhar um pouco de
sol no jardim... Jardim que já conheço como a palma da minha mão.
Os anos passam e os meus
filhos não entram por aquela porta, de braços abertos, para me envolverem com
carinho, com afectos...
Os dias passam... E com eles
a esperança vai-se... No começo, a esperança alimentava-me, ou eu a alimentava,
não sei... Mas, agora... Como esquecer que fui esquecida? Como engolir esse nó
que teima em ficar na minha garganta, dia após dia?
Todas as lágrimas que chorei
não foram suficientes para desfaze-lo... Sinto que o crepúsculo desta
existência se aproxima... Queria saber dos meus filhos... Dos meus netos...
Será que ao menos ainda se lembram de mim? A esperança, agora, parece estar
atrelada aos minutos... Que a arrastam sem misericórdia para bem longe de
mim...
Às vezes, em sonhos, vejo um
lindo jardim, que transcende os muros deste albergue e se abre em caminhos
floridos que levam a outra realidade, onde braços afectuosos estão à minha
espera com amor e alegria... Mas, quando acordo, é a minha realidade que eu
vejo... Que eu vivo... Que eu sinto... Um dia alguém me disse que a vida não se
acaba num túmulo escuro e silencioso... Que a vida continua após a morte, de
uma outra forma... Mas com certeza a minha matéria, a minha mente, o meu eu,
desta vida que vivo agora, com o nome que tenho, nunca mais existirá! E quando
a morte chegar, só vai restar a saudade que com o passar do tempo se ameniza...
(se é que alguém vai sentir saudades minhas, já que não sentiram enquanto ainda
estou viva neste asilo...)
Sinto que a minha hora está a
chegar... Depois, quando eu partir, gostaria que alguém encontrasse estas
minhas anotações e as divulgasse. E que elas pudessem tocar os corações dos
filhos que internam os seus pais em asilos e nunca os visitam... Que eles
possam saber um pouco sobre a dor de alguém que sente o que é ser abandonado...
Pensem que a cada pai e a cada mãe Deus perguntará: O que fizestes do filho
confiado à vossa guarda? E aos filhos: O que fizestes aos vossos pais?
quarta-feira, 18 de junho de 2014
A culpa morre sempre solteira...
Popularmente afirma-se que “a
culpa morre sempre solteira”, querendo com isso dizer que, voltas dadas, contas
feitas, não se consegue descobrir o par à altura. Não se é capaz de descobrir o
tal culpado, a criatura que começou a intriga ou o crime, o responsável último
da acção nefasta.
Se nem que seja o partir de um copo tenha de ter um
culpado, o facto é que se arranjam fórmulas mágicas de aliviar
responsabilidades e explicar, com indiscutível mérito e razoável imaginação,
que foi por causa de um outro, que o copo não devia estar ali, que alguém o pôs
ali de propósito para ser partido e arranjar uma situação desagradável.
Ficamos, pois, com um copo partido e um extraordinário
complô, que, não explicando coisa alguma, dilui responsabilidades e anula
culpas.
Se com copos isto é assim, imaginem com o resto.
A questão, porque de facto o ser assim levanta, pelo
menos, uma importante pergunta, é a de saber por que é que parece tão difícil
assumir que cometemos erros, nos enganamos, avaliamos mal a situação,
desempenhámos ineficazmente a tarefa de que estávamos incumbidos, fomos
arrogante, desprezámos indicadores vitais, não tínhamos razão, desmotivámo-nos,
desinteressámo-nos, facilitámos, confiámos em quem não devíamos, não tivemos atenção,
enfim, o que se queira, sempre no território das desculpas que, ainda assim,
não depreciem o mea culpa
fundamental. Percebe-se que os actos criminosos ou delinquentes se arredem
desta lógica.
Não se percebe por que é que assuntos comezinhos e
quotidianos tenham de ser enrodilhados em histórias compridas e mal contadas,
em que os factos se distorçam e o que apareça como produto final seja uma
nebulosa de mal-entendidos, zangas pessoais, acusações mútuas, afirmações
desgarradas de princípios, que normalmente não vêm nada a propósito.
Dir-se-ia que se confunde a assunção da culpa com o
castigo. Que parece que se acredita que basta dizer-se que se errou para
merecer a sanção colectiva do desamor, do desrespeito ou do desprezo, e que,
por essa via, acreditando que a sorte de um homem é escapar, vale tudo para
instalar a dúvida e fugir à punição. Ou então, e igualmente grave, que
obliteramos o senso de responsabilidade e não o desenvolvemos o suficiente para
viver pacatamente em sociedade.
Chegados aqui, parece que temos de concluir uma de duas
coisas: ou, de facto, somos todos educados, e educamos com tantos “panos
quentes” que assumir o que quer que seja de motu
proprio é um exercício demasiado sofisticado; ou tememos mais a crítica
social do que estimamos a velha e boa ideia de termos a consciência tranquila.
Em qualquer dos casos, venha o Diabo e escolha.
Joaquim Maneta Alhinho
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