quinta-feira, 26 de março de 2015

Poema "Terceira Juventude" faz parte do livro «Antologia de Poesia Contemporânea»


Este poema da minha autoria (que já virou letra de canção) teve a distinção de ser incorporado na «Antologia de Poesia Contemporânea», editado em livro pela Chiado Editora, com o título "Entre o Sono e o Sonho".

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

O menino e a bicicleta azul



Pediu aos pais uma bicicleta e gostava que fosse azul. Nem mais nem menos, azul como a cor do mar.
A primeira bicicleta que teve, tinha três rodas e chamava-se triciclo e aquela que pedira, diziam os pais, iria ter também 3 rodas, a roda grande e duas pequenas atrás para ele se equilibrar e não cair.
Tude certo pensou, desde que fosse azul, como aquela do palhaço equilibrista que tanto o impressionou, nas últimas férias, quando os pais o levaram ao circo do Coliseu. Ida que foi uma aventura, a sua primeira grande aventura, com tigres e leões domados e pacíficos mas que, mesmo assim o assustaram. E os ginastas e trapezistas que voavam de um lado para o outro que até pareciam as gaivotas na praia onde ensaiou os primeiros banhos de mar. Também, as mulheres do circo eram bonitas, como a mãe e a educadora do jardim infantil, mas que faziam ginásticas complicadas em fato de banho, de pé em cima de cavalos brancos que rodopiavam na pista e lhe punham a cabeça a girar sem perceber porquê.
Mas, desta iniciática experiência, o que se lhe fixou mais na memória e que puxava agora à lembrança, foi o tal palhaço de bicicleta azul que fazia uma variedade enorme de piruetas e depressa desmontou parte da bicicleta e ficou só como uma roda e, mesmo assim, saltou uma prancha e parou em cima dela, indeciso se ia para um lado ou para outro e, mais estranho ainda, aterrou numa corda esticada entre dois tripés que os companheiros seguravam bem e só com uma roda andava de trás para a frente e de frente para trás, com uma comprida barra de ferro nas mãos e ficava assim, parado no ar, a receber aplausos da assistência, os dele também, para alegria dos pais que se sentiam gratificados por o miúdo ter gostado do circo.
Veio para casa e, mesmo ainda pelo caminho, pediu uma bicicleta azul como aquela do palhaço. Foi-lhe feita a vontade e o miúdo depressa se transformou num “às do pedal”, à custa de uns tantos arbustos amachucados no jardim da cidade, de algumas negras nos braços e nas pernas e alguns arranhões arrancados do cimento dos passeios. Era uma obsessão pela bicicleta azul que os pais se esforçavam por compreender.
Só quanto tentou imitar o palhaço do circo e se estatelou abruptamente sobre um canteiro de roseiras que o deixaram a sangrar, é que percebeu que a sua bicicleta azul não era igual à daquele palhaço que lhe ficara na memória.

Na vida … (conclua o leitor esta crónica)
E a leitora Carla Ferreira, da Moita, concluiu desta forma:


Na vida todos andamos de bicicleta de maneira diferente e o menino percebeu que o importante era conseguir andar na bicicleta azul, mesmo que não o fizesse tão bem como o palhaço que tentou imitar no circo. Pois ele iria levantar-se e ergue-se de novo quantas vezes cai-se, porque o importante é nunca desistir mesmo que se fique machucado e se estrague o canteiro do vizinho, pois a dor e a persistência é que nos fazem fortes!
                                            



sábado, 24 de janeiro de 2015

A minha fonte de inspiração? As pessoas!


A crónica é um género de escrita ainda hoje de difícil definição.
Começou por ter como tema acontecimentos históricos narrados por ordem cronológica e foi-se transformando, com o evoluir dos tempos, em textos personalizados de comentário e análise das mais diversas situações do quotidiano. Um quotidiano abordado a partir duma perspectiva pessoal em que a formação académica, prática profissional ou conhecimentos específicos do cronista são relevantes, quer no estilo adoptado, quer nos conteúdos escolhidos.
Por se tratar de textos curtos publicados em meios de comunicação social de grande divulgação e terem uma periodicidades intensa, têm habitualmente uma linguagem simples, despretensiosa e mesmo colonial.
Nem sempre o fiz, admito!
Contemporaneamente, a crónica tende a ser mais dissertativa do que narrativa, quer dizer, preocupa-se mais em discorrer ou mostrar um ponto de vista ou uma perspectiva particular sobre um acontecimento, um facto ou até um sentimento, do que descrevê-lo simplesmente.
Vem este arrazoado a propósito de ter em meu poder - umas publicadas e outras por editar - mais de mil crónicas.
Ao longo de tantos anos a escrever, dizem-me que construo textos que interessam às pessoas mas também que são úteis. Dizem-me também, que aquilo que escrevo suscita reacções, identificações, reflexões e até decisões relevantes de quem as lê. Fico imensamente feliz, por isso!
Deixem-me partilhar convosco a minha grande fonte de inspiração: as pessoas.
As pessoas com quem me cruzo na vida social, laboral e na rua. O que as pessoas dizem, as suas interrogações, preocupações e reflexões. As suas distorções e inquietações, as suas mágoas e vitórias, as suas queixas, as suas formas de lidar com os problemas e resolvê-los, os seus momentos de satisfação e gloria.
São as pessoas vulgares, as suas sensações, emoções e sentimentos que tento captar e trazer até vós na esperança de que nas costas dos outros vejamos as nossas.




Joaquim Maneta Alhinho

terça-feira, 21 de outubro de 2014

A fantasia da fuga

Uma das fantasias recorrentes das pessoas cansadas, fartas da vida que levam e de uma sequência de dias sem graça nem luz, é a de poderem fugir.
A fantasia da fuga não é só de crianças que se sentem mal-amadas ou de adolescentes zangados com limites que lhes tentam impor.
Também não tem que ver com aqueles que assumidamente querem partir em busca de uma vida melhor, de maior riqueza ou perseguindo um sonho que tem um nome e um destino certo.
Esta ideia, esta ida em fuga para um lugar distante, obedece ao pressuposto de que há um sítio algures em que é possível estar melhor ou até bem. Como se a distância ou a geografia encerrassem uma qualquer magia curandeira.
Os lugares de refúgio idealizados, contra todas as expectativas, não são praias turísticas nas Caraíbas, cidades futuristas, estâncias requintadas ou grandes metrópoles de encontro de culturas.
Os lugares de fuga, de reparação de dores íntimas ou de recuperação de sentidos de vida costumam ser sítios longínquos, não tanto pela geografia, mas sobretudo pela distância cultural, pelo arcaísmo estrutural ou pelo estado de desgraça geral.
Fugir para longe, procurar uma outra forma de estar é, paradoxalmente, quase sempre feito no sentido da busca de mundos pouco desenvolvidos e quase sem recursos.
Como se terras sofridas e gentes de baixa condição de vida permitissem valorizar o que se tem, o que se é, e passa despercebido ou é ignorado entre iguais.
Enquanto os que querem partir para um sítio determinado em busca de riqueza ou esplendor partem mesmo, os outros sonham acordados, imaginam incansavelmente e quedam-se no mesmo lugar, ameaçando a fuga, invocando o cansaço, inventando razões para ficar, descobrindo legitimidades claras para justificar partir.
Ainda assim, a fantasia da fuga, a ideia persistente de que há sempre uma porta de saída, um sítio que espera por nós e em que tudo ficará bem para sempre, não é uma inutilidade entre outras.
Pelo contrário, é o acreditar – ainda que leve, muito levemente – que se permanece porque se quer, que mais um dia ou dois talvez não façam grande diferença no eventual grande destino que lá longe se poderia ter, e serve de anteparo à frustração e de defesa a maiores depressões.
É sempre bom ter um lugar ou um sonho de recurso.


Joaquim Maneta Alhinho