sábado, 14 de novembro de 2015
sábado, 7 de novembro de 2015
O meu "Ti Jaquim": De saudável até à supultura
O meu tio “Jaquim” sempre esteve bem
de saúde.
Ao completar 70 anos,
quer a minha tia Genoveva, quer a minha prima Bia conseguiram convencer o meu
tio a ir ao médico para fazer um check-up.
Embora se sentisse
óptimo e cheio de energia, mas com a palavra prevenção na cabeça, lá fez uma
deslocação ao clínico.
Sabiamente, o médico,
mandou-o fazer análises, radiografias, ecografias e afins. Duas semanas mais
tarde, foi mostrar os resultados ao médico e soube que estavam bons, mas que
tinha algumas coisas em que poderia melhorar.
Receitou-lhe:
Comprimidos
Atorvastatina para o colesterol.
Losartan para a
hipertensão.
Metformina para
evitar diabetes.
Polivitaminas para
aumentar as defesas.
Desloratadina para a
alergia.
Como eram muitos medicamentos,
tinha de proteger o estômago, então recomendou-lhe o Omeprazol e um diurético
para os inchaços.
O meu tio “Jaquim”
foi à farmácia e gastou uma boa parte da sua magra pensão de reforma em várias
caixas requintadas com nomes esquisitos e de cores sortidas.
Como não conseguia
lembrar- se se os comprimidos verdes para a alergia deviam ser tomados antes ou
depois das cápsulas para o estômago e se devia tomar o branco para a
hipertensão antes ou depois das refeições, voltou ao médico.
Este deu-lhe uma
caixinha com várias divisões, mas achou que o meu tio estava tenso e algo
contrariado. Receitou-lhe, então, Alprazolan e Sucedal para dormir.
Naquela tarde, quando
ele entrou na farmácia com as receitas, o farmacêutico e os seus funcionários
fizeram uma fila dupla para ele passar pelo meio, enquanto o aplaudiam.
O que é facto
evidente era que o meu tio em vez de melhorar foi piorando.
Ele tinha todos os
remédios num armário da cozinha e quase já não saía de casa. Já não ia à
taberna do velho Bagulho beber um copito e já não se sentava nos bancos com os
amigos, no Largo de S. Francisco, em Vila Boim.
Dias depois, o
laboratório fabricante de vários medicamentos que ele usava, atribuiu-lhe um
cartão de “Cliente Preferencial”, um termômetro, um frasco estéril para análise
de urina e uma caneta com o logotipo da farmácia.
No pouco tempo que
lhe sobrava entre as tomas dos remédios dava uma volta pelo quintal da sua casa
e acabou por ficar engripado.
A minha tia, como de
costume, fez com que fosse para a cama, mas, desta vez, além do chá com mel,
chamou também o médico.
Ele disse que não se
preocupassem que não era nada de grave, mas prescreveu Tapsin para tomar
durante o dia e Sanigrip com Efedrina para tomar à noite. Como estava com uma
pequena taquicardia, receitou Atenolol e um antibiótico, 1 g de Amoxicilina a
cada 12 horas, durante 10 dias. Entretanto, começaram-lhe a aparecer fungos e
herpes, e ele receitou o Fluconol com Zovirax.
Para
piorar a situação, o tio “Jaquim” começou a ler os folhetos de todos os
medicamentos que tomava e ficou sabendo as contra-indicações, advertências,
precauções, reações adversas, efeitos colaterais e interacções médicas.
Leu
coisas horríveis… Não só podia morrer mas poderia ter também arritmias
ventriculares, sangramento anormal, náuseas, insuficiência renal, paralisia,
cólicas abdominais, alterações do estado mental e um cento de coisas terríveis.
Com
medo de morrer, chamou o médico, que disse para não se preocupar com essas
coisas, porque os laboratórios só colocavam essas coisas todas nos folhetos
para se isentarem de culpas.
-
Calma, Sr. Joaquim, não fique aflito? - disse o médico, enquanto prescrevia uma
nova receita com um antidepressivo Sertralina com Rivotil 100 mg e como o meu
tio estava com dores nas articulações deu-lhe o Diclofenac.
Nessa
altura, sempre que o meu tio recebia a pensão ia directo para a farmácia, onde
já tinha sido eleito cliente “VIP”.
Os
dias passavam depressa com tanta toma de medicamentos que uma noite deitou-se e
já não acordou. O meu tio “Jaquim” tinha morrido!
No
funeral tinha muita gente mas quem mais chorava era o farmacêutico. A minha tia
dizia aos familiares que felizmente mandou o marido ao médico na altura certa,
porque senão, ele teria morrido mais cedo.
Qualquer
semelhança com casos reais é pura coincidência!
segunda-feira, 26 de outubro de 2015
Há vidas assim...
Cansado de lidar com gente que se faz passar por aquilo que não é,
depois de ver as igrejas cheias de pecadores e os cemitérios com tanta gente
nobre, partilho este exemplo de mais um dos meus heróis anónimos.
Este Senhor que para muitos é um sem-abrigo, é um homem nobre.
Professor Universitário aposentado, licenciado em Engenharia com distinção,
co-autor de livros de matemática e engenharia, prescinde da sua confortável
reforma para ajudar os que precisam mais do que ele. Não tocou na fortuna que
herdou dos pais e não usa o carro de boa gama que o pai lhe ofereceu. Na sua
humilde casa ou em locais públicos, ensina os jovens universitários e outros
estudantes que o procuram sem nunca cobrar um cêntimo. Vive com o indispensável
para sobreviver e recusa ajudas porque é um "homem rico" e tem a vida
que escolheu. Partilhem esta estória de motivação para uma sociedade melhor. O
engenheiro Valdemar Caldeira não vai gostar, não lhe digam nada... O Engenheiro
Caldeira não tem facebook, nem computador, nem telemóvel. Mas tem tempo,
esperança e solidariedade para dar a quem precisa. Bem-haja, que Deus o
conserve por longos anos.
quarta-feira, 21 de outubro de 2015
segunda-feira, 19 de outubro de 2015
quinta-feira, 15 de outubro de 2015
Porque é que se muda?
Era bom sabermos de certeza absoluta, ou pelo menos com aquela margem
de probabilidade que nos consola, porque é que se muda, quando se muda e como
se muda.
Não sendo dos temas mais óbvios, a questão da mudança é dos mais importantes.
Em relação a nós próprios: ao nosso estilo de vida, às formas como nos
vinculamos e nos zangamos depois com as pessoas, às escolhas que fazemos numa
ou noutra direcção. Dava jeito, e às vezes fazia mesmo falta, ter um
entendimento qualquer do que nos move, do que nos faz partir ou ficar, do que
nos seduz irremediavelmente e, também, do que nos assusta inexplicavelmente.
Em relação aos outros, ter algum vislumbre dos caminhos que pretendem
seguir; das conjecturas que, mais frisadas ou mais lisas, os influenciam;
daquilo que em cada momento os atrai ou os distancia era um trunfo
poderosíssimo e uma fonte de poder pessoal que duvido que muitos desprezassem.
Em termos sociais, então, seria o luxo dos luxos perceber porque é que
os nossos valores são ortogonais em relação aos nossos comportamentos, porque é
que sistemas perversos se auto-alimentam para lá de qualquer razoabilidade,
porque é que a realidade dá lições de imaginação aos mais dotados criadores.
Descendo à terra, e indo ao registo onde deambulamos e
que nos costuma preocupar, temos que é um imenso desconforto acreditarmos que
nada se perde e tudo se transforma e não termos a mais pequena noção das
formas, razões e amplitudes dessas mudanças, que nos mudam também.
Por um lado, adoramos o novo e somos sôfregos de
qualquer coisita que quebre a rotina e nos abra horizontes de possibilidades.
Mas, por outro lado, agarramo-nos ao conhecido e resistimos ao que inaugura
essas outras possibilidades como se traíssemos o passado e a nossa história,
como se na adopção do novo desconstruíssemos a nossa periclitante identidade.
Mudamos porque temos de mudar e mudamos quando temos
que mudar. Temos que mudar como condição de adaptação e sobrevivência e
operamos essas transformações quando já esgotámos os truques que nos permitiam
não nos sujeitarmos a mais conversas.
Dos entremeios, quer dizer, das múltiplas e
sofisticadas razões que medeiam as mudanças que fazemos ou nos acontecem, só dá
mesmo para, laboriosamente ir dizendo umas coisitas.
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