segunda-feira, 16 de novembro de 2015

A visita ao Carlos Cruz

Eu vi no seu olhar e senti no abraço forte que me deu seguido de um silêncio mordaz.
Depois disse-me ainda com voz trémula: «Vocês são fantásticas(os)».
Ele sente que o povo o crucificou sem provas mas é reconhecedor de que muita gente do seu país sempre acreditou na sua inocência.
Para mim a visita a este amigo foi carregado de peripécias logo desde a entrada.
A máquina não parava de apitar. Tire os sapatos, dizia a guarda prisional. Mais uma passagem e a máquina insistia no apito. Tire o cinto, por favor!
Aqui, respondi: - «Mau...Querem ver que ainda vou nu!» A jovem guarda sorria, mas ainda me perguntou: Têm alguma prótese? E eu respondi de pronto: - «Que eu saiba não!» Aqui é que foram elas, a jovem guarda dobrou-se de tanto rir, pegou-me no braço e lá fui eu com os sapatos e o cinto numa mão e com a outra a segurar as calças, no trajecto pelas escadarias, pelo enorme corredor até chegar ao amigo Carlos Cruz. Não me largou o braço até que o Carlos ao abraçar-me perguntou: «Então Alhinho, continuas um modelo, pá! Como vão as tuas mulheres?» Aqui, a jovem guarda encostou-se à ombreira da porta com dores no estômago de tanto sorrir e caminhou deambulando curvada pelo corredor.
Ambos ficámos felizes e durante a hora que dialogámos li no seu olhar a sua inocência. Só um cego não vê...Sente-se injustiçado, inconformado e revoltado, mas com muita coragem para enfrentar a decisão que a juíza irá proferir a partir de 2 de Dezembro.
As dores nas costas e no ombro são penosas, mas resisti firme, qual guerrilheiro na primeira fila da batalha e que não tem medo de dar o corpo às balas.
Falámos do seu próximo livro que acabou de corrigir e também falámos do meu, que vai ser muito polémico. Aqui, depois de lhe traçar ao de leve sobre o seu conteúdo, avisou-me: «Alhinho, vê lá onde te vais meter!»
Amanhã, conto o resto, ok?
Ah, na saída já composto fui buscar os meus pertences à recepção. Quem lá estava? A jovem guarda que me deu uma bolsa de pano. Agradeci-lhe com um sorriso e dirigi-me à porta de saída de sacola às costas. De repente ouço a sua voz, «Ó senhor, a bolsa não é para levar para casa é só os seus pertences». Voltei-me e deixei de a ver. Aproximei-me do balcão e lá estava ela novamente curvada com a mão no estômago de tanto sorrir.
Lá diz o velho ditado: "Vale mais cair em graça do que ser engraçado."
Ficou-me a satisfação de ter deixado naquela manhã duas pessoas felizes: O amigo Carlos Cruz e a morena guarda prisional.

sábado, 7 de novembro de 2015

O meu "Ti Jaquim": De saudável até à supultura

O meu tio “Jaquim” sempre esteve bem de saúde.
Ao completar 70 anos, quer a minha tia Genoveva, quer a minha prima Bia conseguiram convencer o meu tio a ir ao médico para fazer um check-up.
Embora se sentisse óptimo e cheio de energia, mas com a palavra prevenção na cabeça, lá fez uma deslocação ao clínico.
Sabiamente, o médico, mandou-o fazer análises, radiografias, ecografias e afins. Duas semanas mais tarde, foi mostrar os resultados ao médico e soube que estavam bons, mas que tinha algumas coisas em que poderia melhorar.
Receitou-lhe:
Comprimidos Atorvastatina para o colesterol.
Losartan para a hipertensão.
Metformina para evitar diabetes.
Polivitaminas para aumentar as defesas.
Desloratadina para a alergia.
Como eram muitos medicamentos, tinha de proteger o estômago, então recomendou-lhe o Omeprazol e um diurético para os inchaços.
O meu tio “Jaquim” foi à farmácia e gastou uma boa parte da sua magra pensão de reforma em várias caixas requintadas com nomes esquisitos e de cores sortidas.
Como não conseguia lembrar- se se os comprimidos verdes para a alergia deviam ser tomados antes ou depois das cápsulas para o estômago e se devia tomar o branco para a hipertensão antes ou depois das refeições, voltou ao médico.
Este deu-lhe uma caixinha com várias divisões, mas achou que o meu tio estava tenso e algo contrariado. Receitou-lhe, então, Alprazolan e Sucedal para dormir.
Naquela tarde, quando ele entrou na farmácia com as receitas, o farmacêutico e os seus funcionários fizeram uma fila dupla para ele passar pelo meio, enquanto o aplaudiam.
O que é facto evidente era que o meu tio em vez de melhorar foi piorando.
Ele tinha todos os remédios num armário da cozinha e quase já não saía de casa. Já não ia à taberna do velho Bagulho beber um copito e já não se sentava nos bancos com os amigos, no Largo de S. Francisco, em Vila Boim.
Dias depois, o laboratório fabricante de vários medicamentos que ele usava, atribuiu-lhe um cartão de “Cliente Preferencial”, um termômetro, um frasco estéril para análise de urina e uma caneta com o logotipo da farmácia.
No pouco tempo que lhe sobrava entre as tomas dos remédios dava uma volta pelo quintal da sua casa e acabou por ficar engripado.
A minha tia, como de costume, fez com que fosse para a cama, mas, desta vez, além do chá com mel, chamou também o médico.
Ele disse que não se preocupassem que não era nada de grave, mas prescreveu Tapsin para tomar durante o dia e Sanigrip com Efedrina para tomar à noite. Como estava com uma pequena taquicardia, receitou Atenolol e um antibiótico, 1 g de Amoxicilina a cada 12 horas, durante 10 dias. Entretanto, começaram-lhe a aparecer fungos e herpes, e ele receitou o Fluconol com Zovirax.
Para piorar a situação, o tio “Jaquim” começou a ler os folhetos de todos os medicamentos que tomava e ficou sabendo as contra-indicações, advertências, precauções, reações adversas, efeitos colaterais e interacções médicas.
Leu coisas horríveis… Não só podia morrer mas poderia ter também arritmias ventriculares, sangramento anormal, náuseas, insuficiência renal, paralisia, cólicas abdominais, alterações do estado mental e um cento de coisas terríveis.
Com medo de morrer, chamou o médico, que disse para não se preocupar com essas coisas, porque os laboratórios só colocavam essas coisas todas nos folhetos para se isentarem de culpas.
- Calma, Sr. Joaquim, não fique aflito? - disse o médico, enquanto prescrevia uma nova receita com um antidepressivo Sertralina com Rivotil 100 mg e como o meu tio estava com dores nas articulações deu-lhe o Diclofenac.
Nessa altura, sempre que o meu tio recebia a pensão ia directo para a farmácia, onde já tinha sido eleito cliente “VIP”.
Os dias passavam depressa com tanta toma de medicamentos que uma noite deitou-se e já não acordou. O meu tio “Jaquim” tinha morrido!
No funeral tinha muita gente mas quem mais chorava era o farmacêutico. A minha tia dizia aos familiares que felizmente mandou o marido ao médico na altura certa, porque senão, ele teria morrido mais cedo.

Qualquer semelhança com casos reais é pura coincidência!

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Há vidas assim...

Cansado de lidar com gente que se faz passar por aquilo que não é, depois de ver as igrejas cheias de pecadores e os cemitérios com tanta gente nobre, partilho este exemplo de mais um dos meus heróis anónimos.

Este Senhor que para muitos é um sem-abrigo, é um homem nobre. Professor Universitário aposentado, licenciado em Engenharia com distinção, co-autor de livros de matemática e engenharia, prescinde da sua confortável reforma para ajudar os que precisam mais do que ele. Não tocou na fortuna que herdou dos pais e não usa o carro de boa gama que o pai lhe ofereceu. Na sua humilde casa ou em locais públicos, ensina os jovens universitários e outros estudantes que o procuram sem nunca cobrar um cêntimo. Vive com o indispensável para sobreviver e recusa ajudas porque é um "homem rico" e tem a vida que escolheu. Partilhem esta estória de motivação para uma sociedade melhor. O engenheiro Valdemar Caldeira não vai gostar, não lhe digam nada... O Engenheiro Caldeira não tem facebook, nem computador, nem telemóvel. Mas tem tempo, esperança e solidariedade para dar a quem precisa. Bem-haja, que Deus o conserve por longos anos.

Se procuras um amigo? Conta comigo...