Há uma clássica superstição
que toda a gente conhece, sobre o facto de partir um espelho implicar sete anos
de azar.
Esta ideia radica numa outra mais antiga de que o reflexo humano, a imagem
devolvida a partir de qualquer superfície refletora, exprimir a própria alma do
indivíduo e, nesse sentido, significar, ao ser quebrada, uma quebra na própria
identidade, quando não a própria morte.
Se os sujeitos não morressem por quebra de identidade, pelo menos sofriam um
período longo de infelicidades várias, os tais sete anos, que, de acordo com
muitas tradições, corresponderia ao tempo de um ciclo completo da vida humana.
De superstição em superstição e de mito em mito, vão sobrando para os dizeres
quotidianos e as convicções de cada um nós fórmulas interessantes de
racionalizar os tempos difíceis que atravessamos.
Num destes dias, nas inevitáveis conversas de café que já não são só sobre o
estado do tempo, alguém afirmava, cheio de certezas, que o país atravessava
sete anos de azar, já que era esse o tempo das crises.
Numa fase da vida colectiva e individual em que a incerteza paira em redor como
se fora um enorme e espesso manto, estas crenças inadvertidamente partilhadas
resultam esperançosas.
De um lado temos que as previsões oficiais e oficiosas que a vida, tal como a
conhecíamos, acabou. Que a sensação de segurança relativa de que gozávamos,
assente num sem número de direitos adquiridos, é agora uma página virada.
Por outro lado, temos ainda expectativas, baixas, mas expectativas.
A vantagem de expectativas baixas é, como se sabe, a de não ter enormes
decepções, o que parece francamente irrisório num quadro em que o Contrato
Social esgaça por todos os lados. Mas, porque somos humanos, precisamos delas.
Precisamos de nos poder projectar no futuro e acreditar que algures no trilho
que seguimos encontraremos um almejado conforto.
E a vida continua. Além de continuar, como continua sempre independentemente
das conjunturas e das vicissitudes, as pessoas continuam iguais a si próprias, a
necessitar de estímulos e alento. Continuam, por isso, em busca de sentidos que
consigam compreender. E, convenhamos, sete anos é um bonito número.
Mesmo que também se lembrem, vagamente, de outras tradições que mostrem que
sete anos não são um prazo mas apenas um tempo longo de elaboração ou
recalcamento: "Sete anos de pastor Jacob servia Labão, pai de
Raquel".