sexta-feira, 30 de setembro de 2016
segunda-feira, 26 de setembro de 2016
sexta-feira, 16 de setembro de 2016
sexta-feira, 9 de setembro de 2016
O segredo de ser pai e ser filho
Sei que é
inevitável e bom que os filhos deixem de ser crianças e abandonem a protecção
do ninho. Sei que é inevitável que eles voem em todas as direcções como
andorinhas adoidadas.
Sei que é
inevitável que eles construam os seus próprios ninhos e eu fique com o ninho
abandonado no alto da serra.
Mas, o que
eu queria, mesmo, era poder fazê-los de novo dormir no meu colo…
Existem
muitos jeitos de voar. Até mesmo o voo dos filhos ocorre por etapas. A nossa
impotência de estarmos com eles 24 horas por dia, o desmame, o “vigiado” soltar
da rédea, os primeiros passos, o primeiro dia na escola, a primeira noite fora
de casa, a primeira viagem solitária, o “avisar” e “deixar bater com a cabeça
na parede”, porque por vezes tal também é necessário e positivo.
Desde o
nascimento dos nossos filhos que temos a oportunidade de aprender sobre esse
estranho movimento de ir e vir, segurar e soltar, acolher e libertar. Nem
sempre percebemos que esses momentos tão singelos são pequenos ensinamentos
sobre o exercício da liberdade.
Mas, chega
um momento em que a realidade bate à porta e escancara novas verdades,
impossíveis de recusar, contudo difíceis de encarar. É a sua ida para a ama, o
infantário, depois a escola, o liceu, a faculdade, o emprego… enfim o “PROGRESSIVO”
“grito do Ipiranga“ da independência, a força da vida em movimento, o poder do
tempo que tudo transforma sem disso darmos conta.
Quando nos
damos conta, que já um dia o fizemos aos nossos pais, de que os nossos filhos
cresceram (e muitas das vezes, por “não termos tempo” nem demos por isso) e
apesar de insistirmos em ocupar o lugar de destaque, eles sentem urgência de
conquistar o seu próprio espaço, o seu mundo ligeiramente à distância, longe de
nós.
E nós filhos,
que outrora só demos preocupações e problemas, muito embora “salpicados”, por
aqui e por ali, com sorrisos e sucessos, ao vermos os nossos pais perderem as
suas forças, o seu vigor e tristemente a sua independência e faculdades, dando
ao cuidado de estranhos, porque nos sentimos impotentes para deles tratar, com
alguma dignidade, porque a vida assim está organizada. Olhamo-nos ao espelho e começamos
a verificar, também em nós próprios, cansaço, rugas, cabelos brancos, pequenas
“rabugices”, ao irmos (nas suas costas rectificar coisas que outrora jamais
necessitavam de rectificação), dando-lhes sempre razão para não os desmotivar,
querendo às vezes (para não dizer sempre) “parecer” fortes, (pura ilusão) damos
por nós olhando para o espelho e dizer: Esta vida tem que continuar.
Alguém
invisível, está a tomar conta das operações muito discretamente e não permite
que os “normais” tropeções da vida nos magoem demasiado.
É chegado
então o tempo de recolher as nossas asas. Aprender a abraçar à distância, a
estar sempre pronto a colaborar, mas nunca a sufocar, a comemorar vitórias das
quais não participamos directamente, apoiando decisões, (por vezes erradas) porque
a fazer asneiras também se aprende. Por isso caminhamos para longe, permitindo
o prosseguir desta coisa tão bela, que se desenrola completamente de improviso,
que se chama VIDA.
Tudo isto é
amor, sabiam?
terça-feira, 6 de setembro de 2016
«Tenta outra vez» fará parte da Antologia de Poesia Contemporânea Portuguesa/2016
Um poema da minha autoria com o titulo «Tenta outra vez» fará parte integrante da Antologia de Poesia Contemporânea Portuguesa que será levada à estampa pela Chiado Editora, com lançamento previsto ainda este mês de Setembro.
Uma distinção que muito me honra pelo 2.º ano consecutivo.
É bom saber que existe sempre alguém que goste de nós e do nosso trabalho.
Uma distinção que muito me honra pelo 2.º ano consecutivo.
É bom saber que existe sempre alguém que goste de nós e do nosso trabalho.
segunda-feira, 29 de agosto de 2016
Não havia mais tempo
"Aquele
era o seu último dia de vida, mas ele não sabia disso."
Naquela manhã, sentiu vontade de dormir
um pouco mais. Estava cansado, tinha-se deitado muito tarde e não tinha dormido
bem. De imediato abandonou a ideia de ficar um pouco mais na cama, e
levantou-se, pensando nas muitas coisas que precisava de fazer na empresa.
Lavou o rosto e fez a barba a correr,
automaticamente. Não prestou atenção no rosto cansado e nem nas olheiras
escuras, resultado de noites mal dormidas.
Engoliu o café e saiu resmungando
baixinho um "bom dia", sem muita convicção. Desprezou os lábios da
esposa, que se ofereciam para um beijo de despedida. Não entendia porque ela se
queixava tanto da ausência dele e vivia pedindo mais tempo para ficarem juntos.
Ele estava a manter o elevado padrão de
vida da família, não estava? Isso não bastava?
Entrou no carro e saiu. Pegou no telemóvel
e ligou para a sua filha. Sorriu quando soube que o netinho tinha dado os
primeiros passos. Ficou sério quando a filha o lembrou de que já havia muito
tempo em que não aparecia para ver o neto e almoçar com eles.
Ele relutou bastante: sabia que iria
gostar muito de estar com o neto. Mas não podia, naquele dia, sair da empresa.
Quem sabe no próximo fim-de-semana?
Chegou à empresa e mal cumprimentou as
pessoas. A agenda estava lotada, e era muito importante começar logo a atender
os seus compromissos, pois tinha plena convicção de que as pessoas de valor não
desperdiçam o seu tempo com conversa fiada.
Na hora do almoço, pediu à secretária
para trazer uma sandes e um sumo. O colesterol estava alto, precisava de fazer
um check-up, mas isso ficaria para o
mês seguinte.
Começou a comer enquanto lia alguns documentos
que iria usar na reunião da tarde. Nem observou que tipo de comida estava a mastigar.
Enquanto relacionava os telefonemas que
deveria fazer, sentiu um pouco de tontura e a vista embaciada. Lembrou-se do
médico que o advertiu, alguns dias antes, quando tivera os mesmos sintomas, de
que estava na hora de fazer uns exames.
Mas logo concluiu que era apenas um mal-estar passageiro, que seria
resolvido com um café forte, sem açúcar.
Terminado o "almoço", escovou
os dentes e voltou ao trabalho. "A vida continua", pensou. Mais
papéis para ler, mais decisões a tomar, mais compromissos a cumprir.
Saiu para uma reunião já meio atrasado.
Não esperou o elevador. Desceu as escadas saltando os degraus de dois em dois.
Entrou no carro, e, quando ia meter a mudança, sentiu de novo o mal-estar e
agora acompanhada com uma dor forte no peito.
O ar começou a faltar... A dor foi
aumentando... O carro desapareceu... Os outros carros também... Os pilares, as
paredes, a porta, a claridade da rua, as luzes do tecto, tudo se foi apagando
diante dos seus olhos, ao mesmo tempo que surgiam cenas de um filme que ele
conhecia bem.
A esposa, o netinho, a filha e, uma após
outra, todas as pessoas de quem mais gostava.
Porque não tinha ido almoçar com a filha
e o neto? O que é que a esposa tinha dito à porta de casa quando ele estava de
saída, hoje de manhã?
A dor no peito persistia, mas agora
outra dor começava a perturbá-lo: a do arrependimento.
Ele não conseguia distinguir qual era a
mais forte: a dor da coronária entupida ou da sua alma a rasgar-se.
Escutou o barulho de algo a partir-se
dentro do seu coração, e dos seus olhos escorreram lágrimas silenciosas.
Queria viver, queria ter mais uma chance, queria voltar para casa e beijar
a esposa, abraçar a filha e brincar com o neto.
Queria... Queria... Mas não havia mais
tempo!
Joaquim Maneta Alhinho
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