domingo, 26 de julho de 2026

As Palavras e o Relógio

 

As palavras que ficam por escrever irei pô-las num testamento, junto com os objectos que são a minha paixão: um CD do Leonard Cohen que o meu filho Bruno me ofereceu, a fotografia da minha esposa de azul vestida, a guitarra acústica Ibânez numerada, que a viúva de um amigo me ofertou, os livros que escrevi que pouca gente leu, os CDs que gravei que pouca gente ouviu,  e a caneta que o meu filho me prendou num dos meus aniversários, reservada para assinar o meu documento de resignação, se tinta ainda tiver.

Sempre tive uma relação conflituosa com o meu relógio. Melhor, com esse adorno que agora confino a uma gaveta da minha mesa-de-cabeceira. A gaveta é útil para a medicação, as horas também o são sempre que delas tiro o partido das minhas alegrias, em jeito das memórias. E, quando os ponteiros são como pássaros dados ao vento, caem as folhas do meu calendário, os homens inscrevem a sua história com nome de séculos e os nomes das coisas afogam-se nas páginas dos dicionários. A mim, aqui junto das letras que ninguém lê – até ao dia da sua celebração, sem censores ou negritude sobre os olhares -, bastam-me o delírio da imaginação e a consolação dos meus humanos apetites.

Há pouco a campainha tocou, era o carteiro: tinha uma notificação das Finanças (pensei que seria por não ter declarado a gaiola da caturra, que nunca teve inquilino), mas só amanhã abro a carta. A máquina deu sinal de que a roupa estava lavada, onde a minha camisa predilecta estava ainda baloiçando, essa que uso sem gravata. A relação conflituosa com o meu relógio alivia-me da percepção de que, afinal de contas, aquilo que mais me incomoda são os espelhos: quando aparo as sobrancelhas, ao limpar o pó da moldura que faz lembrar a minha infância. E corro desenfreado adentro do sonho, atiro, como o pregão do velho amolador, palavras contra as portas da minha casa, enquanto os objectos do meu desejo são rostos sem nome onde as rugas fazem lembrar a entranha duma árvore. Um destes dias vou morar, numa gaveta mais comprida daquela onde o meu relógio repousa. Pode acontecer que alguém me faça companhia na viagem, nem que sejas tu ou vocês a quem as minhas mãos oferecem as palavras que ficaram por dizer. Dentro em breve, vou atrasar as horas, vou tirar proveito do conhecimento das leis celestes, mas com o problema irresolúvel de não me sentir pecador.

 

Joaquim Maneta Alhinho





quinta-feira, 12 de março de 2026

Chega. Basta. Já cansa…

 

Falem do que quiserem, massacrem, dissequem e cuspam, mas não envolvam pessoas que caminham nesta vida com humildade e transparência.

Se querem fazer porcarias e vomitar o veneno, soltem-no ao vento nas imensas falésias da nossa costa. São seis mil hectares, espaço mais que suficiente para verterem a vossa frustração e a raiva contida. Mas não o façam através das redes sociais, com perfis fraudulentos e emails fabricados à “la minute”. Maldigam os patrões, a família, os devedores, os ex-namorados, maridos ou candidatos a ex qualquer coisa.

Digo isto, também na qualidade de vítima destas artimanhas, porque apesar de ter um passado mais ou menos organizado, com um arquivo doce e mão benevolente do tempo e do respeito, sou um alvo fácil de abater.

Mas, dá-me asco ver a facilidade com que se atiça fogo nas redes sociais, a forma desmazelada como se faz uso fácil da ironia e de algumas figuras de estilo, em prol do vómito da vingança.

“Roubaste-me dinheiro que estava caído na tua cozinha”; “Tiraste um mestrado sem estudares”; “Chulo de mulheres” e muitas outras tantas, daqueles que se escondem atrás de um ecrã e de uma claque de amigos, que batem palmas a qualquer pôr do sol.  Arrogância usada nas afirmações só com o objectivo de insultar. Não, não são todos líderes déspotas de países de terceiro mundo, são pessoas iguais a nós, que pertencem a uma família qualquer, tão disfuncional como a nossa, que serão pais ou não, mas certamente filhos de alguém.

Infelizmente, a nossa relação, com alguém, não define essa pessoa. Pensar o contrário é uma pretensão, mesmo com muito amor próprio.

Um relógio parado acerta duas vezes por dia. Mas nós não somos um relógio, nem nunca seremos tão precisos quanto um. Temos obrigação orgânica de sermos mais ponderados e de pensamento mais flexível.

Mal, toda a gente vai pensar, alguma vez, e toda a gente vai dizer, muitas vezes. Sempre que for possível, dominem-se, reservem-se e respirem fundo.

O mundo agradece e amolece. E para duras, já nos bastam as pedras do caminho.

Fui eu quem disse…

 


Joaquim Maneta Alhinho

quinta-feira, 25 de julho de 2024

Preciso de Viver antes de morrer

 

Não sei o que fazer primeiro

mas preciso ser diferente

nem sei onde vou buscar coragem

para enfrentar os monstros de frente.

 

Sei que não posso parar tão cedo

ainda tenho muito que fazer

mesmo que tenha falhas e medos

 preciso de viver antes de morrer.

 

Apesar de esquecer às vezes

quando falta a disposição

quando vejo passar os meses

ouço o grito do meu coração.

 

Nada mais me importa

não tenho tempo a perder

porque o tempo passa

e preciso de viver antes de morrer.

 

Tudo aquilo que sonhei, enquanto fui criança

vou viver essa aventura

pensar em algo, fugir ao tempo

fazer uma loucura.

 

Vem comigo sentir

vem comigo viver

porque todos nós

Precisamos de viver antes de morrer.

  

Autor: Joaquim Maneta Alhinho @SPA