Experimentem perguntar a alguém entre os 20 e os 30 anos qual
o defeito de que menos gostam ou com o qual têm mais dificuldades em lidar.
Arrisco-me a dizer que nove em cada dez dirão, à cabeça e sem
hesitação, que detestam a falsidade.
A falsidade é o contrário da genuinidade, uma característica,
portanto, do que não é verdadeiro.
Dir-se-ia, numa lógica de senso comum, que estes jovens
adultos estariam a dizer que não gostavam de mentiras nem de mentirosos, que
não gostavam de estilos de vida artificiais, que não gostavam dos diferentes
géneros das ficções que entrecruzam a vida da sociedade (do nosso tempo como,
provavelmente, de todos os outros).
Dir-se-ia que estariam a dizer o mesmo que anteriores
gerações que fizeram da busca da verdade um sentido existencial.
Mas não é bem isso. Quando se tenta investigar o que querem
dizer com esta palavra quase fora de moda, descobre-se que aquilo que os
preocupa são, sobretudo, as falsas aparências, a desfaçatez, a manipulação, as
formas de engano que costumam acompanhar as relações sociais de todos os que
procuram afirmar-se, obter vantagens, prestígio ou influência num dado grupo.
O que querem dizer é que não gostam que os outros se “armem”,
se façam passar por quem não são ou usem estratagemas poucos claros para obter
resultados e benefícios próprios.
Por qualquer razão, a antipatia pela falsidade, que virou
cliché geracional, diz-nos, antes de mais, da importância atribuída à
capacidade de se assumir tudo e mais um par de botas, de se usar de fraqueza a
tocar a coragem, ainda que brutal.
Esta valorização, mesmo que seja apenas discursiva, já que o
que é exigido aos outros não é o que se consegue ser e dar, aponta
provavelmente um valor emergente num tempo em que se diz que se perderam todos
os valores.
Também diz, implicitamente, da consciência, mesmo ténue, de
um sentimento de desconfiança arreigado e profundo. O não se poder confiar, o
ter de esperar que o amigo ou o amor de hoje seja o oponente ou o inimigo de
amanhã.
O viver em sociedade sempre implicou um qualquer grau de
representação, de desempenho, mesmo de cinismo. Chamar a isso falsidade e fazer
disso um defeito pode ser que seja uma boa noticia.
Joaquim Maneta Alhinho

