domingo, 9 de agosto de 2026
domingo, 26 de julho de 2026
As Palavras e o Relógio
As
palavras que ficam por escrever irei pô-las num testamento, junto com os
objectos que são a minha paixão: um CD do Leonard Cohen que o meu filho Bruno
me ofereceu, a fotografia da minha esposa de azul vestida, a guitarra acústica
Ibânez numerada, que a viúva de um amigo me ofertou, os livros que escrevi que
pouca gente leu, os CDs que gravei que pouca gente ouviu, e a caneta que o meu filho me prendou num dos
meus aniversários, reservada para assinar o meu documento de resignação, se
tinta ainda tiver.
Sempre
tive uma relação conflituosa com o meu relógio. Melhor, com esse adorno que
agora confino a uma gaveta da minha mesa-de-cabeceira. A gaveta é útil para a
medicação, as horas também o são sempre que delas tiro o partido das minhas
alegrias, em jeito das memórias. E, quando os ponteiros são como pássaros dados
ao vento, caem as folhas do meu calendário, os homens inscrevem a sua história
com nome de séculos e os nomes das coisas afogam-se nas páginas dos
dicionários. A mim, aqui junto das letras que ninguém lê – até ao dia da sua
celebração, sem censores ou negritude sobre os olhares -, bastam-me o delírio
da imaginação e a consolação dos meus humanos apetites.
Há pouco a
campainha tocou, era o carteiro: tinha uma notificação das Finanças (pensei que
seria por não ter declarado a gaiola da caturra, que nunca teve inquilino), mas
só amanhã abro a carta. A máquina deu sinal de que a roupa estava lavada, onde
a minha camisa predilecta estava ainda baloiçando, essa que uso sem gravata. A
relação conflituosa com o meu relógio alivia-me da percepção de que, afinal de
contas, aquilo que mais me incomoda são os espelhos: quando aparo as
sobrancelhas, ao limpar o pó da moldura que faz lembrar a minha infância. E corro
desenfreado adentro do sonho, atiro, como o pregão do velho amolador, palavras
contra as portas da minha casa, enquanto os objectos do meu desejo são rostos
sem nome onde as rugas fazem lembrar a entranha duma árvore. Um destes dias vou
morar, numa gaveta mais comprida daquela onde o meu relógio repousa. Pode
acontecer que alguém me faça companhia na viagem, nem que sejas tu ou vocês a
quem as minhas mãos oferecem as palavras que ficaram por dizer. Dentro em
breve, vou atrasar as horas, vou tirar proveito do conhecimento das leis
celestes, mas com o problema irresolúvel de não me sentir pecador.
Joaquim Maneta Alhinho
sábado, 11 de julho de 2026
terça-feira, 7 de julho de 2026
segunda-feira, 6 de julho de 2026
sábado, 30 de maio de 2026
quinta-feira, 12 de março de 2026
Chega. Basta. Já cansa…
Falem do
que quiserem, massacrem, dissequem e cuspam, mas não envolvam pessoas que
caminham nesta vida com humildade e transparência.
Se querem
fazer porcarias e vomitar o veneno, soltem-no ao vento nas imensas falésias da
nossa costa. São seis mil hectares, espaço mais que suficiente para verterem a
vossa frustração e a raiva contida. Mas não o façam através das redes sociais,
com perfis fraudulentos e emails fabricados à “la minute”. Maldigam os patrões,
a família, os devedores, os ex-namorados, maridos ou candidatos a ex qualquer
coisa.
Digo isto,
também na qualidade de vítima destas artimanhas, porque apesar de ter um
passado mais ou menos organizado, com um arquivo doce e mão benevolente do
tempo e do respeito, sou um alvo fácil de abater.
Mas, dá-me
asco ver a facilidade com que se atiça fogo nas redes sociais, a forma desmazelada
como se faz uso fácil da ironia e de algumas figuras de estilo, em prol do
vómito da vingança.
“Roubaste-me
dinheiro que estava caído na tua cozinha”; “Tiraste um mestrado sem estudares”;
“Chulo de mulheres” e muitas outras tantas, daqueles que se escondem atrás de
um ecrã e de uma claque de amigos, que batem palmas a qualquer pôr do sol. Arrogância usada nas afirmações só com o
objectivo de insultar. Não, não são todos líderes déspotas de países de
terceiro mundo, são pessoas iguais a nós, que pertencem a uma família qualquer,
tão disfuncional como a nossa, que serão pais ou não, mas certamente filhos de
alguém.
Infelizmente,
a nossa relação, com alguém, não define essa pessoa. Pensar o contrário é uma
pretensão, mesmo com muito amor próprio.
Um relógio
parado acerta duas vezes por dia. Mas nós não somos um relógio, nem nunca
seremos tão precisos quanto um. Temos obrigação orgânica de sermos mais
ponderados e de pensamento mais flexível.
Mal, toda
a gente vai pensar, alguma vez, e toda a gente vai dizer, muitas vezes. Sempre
que for possível, dominem-se, reservem-se e respirem fundo.
O mundo
agradece e amolece. E para duras, já nos bastam as pedras do caminho.
Fui eu
quem disse…
Joaquim Maneta Alhinho


