Autoria: Joaquim Maneta Alhinho
sexta-feira, 16 de outubro de 2026
quarta-feira, 7 de outubro de 2026
Se não visse não acreditava
A caminho do S. Mateus de Elvas, já tinha deixado Borba para
trás quando à distância vejo o cigano Asdrubal a insistir com o seu burro Janico
para caminhar. Mas qual quê? O burro encostou-se à valeta e dali não saía, nem
para trás nem para a frente.
O Asdrubal bem tentava ver de onde vinha o problema do burro.
Seria artroses, dores ciáticas ou cólicas intestinais?
Estava ali um quadro caricato. Abeirei-me dele e perguntei:
- Então caro amigo o que é que se passa com o seu burrito?
Será que tem fome ou sede?
- Qual quê responde-me o cigano Asdrubal. Ele comeu e bebeu
bem, antes de partirmos. Comeu e bebeu mais do que eu…
Ao longe pelo montado avistei uma casita pequena e disse ao
Asdrubal para lá ir, de forma a pedir ajuda.
Lá se pôs ao caminho e apareceu-lhe um homem com um grande
bigode chamado Manel, que logo se prontificou a ajudar o pobre cigano.
O Ti Manel pega numa lata e num pincel grande e lá vinham
eles conversando sobre o estado de saúde do animal.
Eu esperei ao lado do burro, como era o meu dever, pois
claro!
Depois dos cumprimentos, o Ti Manel pede ao Asdrubal cigano
para levantar o rabo do burro e vai daí, o homem molha o pincel na lata da
aguarás e dá duas sacudidelas no rabo do burro.
Ó meu Deus, o burro Janico levantou-se num repente e numa
correria louca, desembraia pela estrada fora que até os cascos faziam faísca.
O cigano vira-se para o Ti Manel e pergunta-lhe: - Então
compadre e agora como é que apanho o meu burro?
Sem pestanejar, disse para o Asdrubal: - Abaixe lá as calças
e a ceroulas. E o cigano assim fez. Ai mãe, a mesma táctica, duas besuntadelas
no rabo do cigano que até deitava fumo pelas orelhas por aquela estrada fora.
Passou pela Terrugem, mas a velocidade era tanta que ao entrarem por Vila Boim,
o cigano Asdrubal ultrapassa o seu burro Janico e diz-lhe em voz alta:
- Encontramo-nos no
Santuário do São Mateus. Não te esqueças tábem…
Concluindo: Quando cheguei à Feira já lá estavam os dois
mergulhados no chafariz, em frente ao Restaurante “El Cristo”.
domingo, 4 de outubro de 2026
FALSIDADE
Experimentem perguntar a alguém entre os 20 e os 30 anos qual
o defeito de que menos gostam ou com o qual têm mais dificuldades em lidar.
Arrisco-me a dizer que nove em cada dez dirão, à cabeça e sem
hesitação, que detestam a falsidade.
A falsidade é o contrário da genuinidade, uma característica,
portanto, do que não é verdadeiro.
Dir-se-ia, numa lógica de senso comum, que estes jovens
adultos estariam a dizer que não gostavam de mentiras nem de mentirosos, que
não gostavam de estilos de vida artificiais, que não gostavam dos diferentes
géneros das ficções que entrecruzam a vida da sociedade (do nosso tempo como,
provavelmente, de todos os outros).
Dir-se-ia que estariam a dizer o mesmo que anteriores
gerações que fizeram da busca da verdade um sentido existencial.
Mas não é bem isso. Quando se tenta investigar o que querem
dizer com esta palavra quase fora de moda, descobre-se que aquilo que os
preocupa são, sobretudo, as falsas aparências, a desfaçatez, a manipulação, as
formas de engano que costumam acompanhar as relações sociais de todos os que
procuram afirmar-se, obter vantagens, prestígio ou influência num dado grupo.
O que querem dizer é que não gostam que os outros se “armem”,
se façam passar por quem não são ou usem estratagemas poucos claros para obter
resultados e benefícios próprios.
Por qualquer razão, a antipatia pela falsidade, que virou
cliché geracional, diz-nos, antes de mais, da importância atribuída à
capacidade de se assumir tudo e mais um par de botas, de se usar de fraqueza a
tocar a coragem, ainda que brutal.
Esta valorização, mesmo que seja apenas discursiva, já que o
que é exigido aos outros não é o que se consegue ser e dar, aponta
provavelmente um valor emergente num tempo em que se diz que se perderam todos
os valores.
Também diz, implicitamente, da consciência, mesmo ténue, de
um sentimento de desconfiança arreigado e profundo. O não se poder confiar, o
ter de esperar que o amigo ou o amor de hoje seja o oponente ou o inimigo de
amanhã.
O viver em sociedade sempre implicou um qualquer grau de
representação, de desempenho, mesmo de cinismo. Chamar a isso falsidade e fazer
disso um defeito pode ser que seja uma boa noticia.
Joaquim Maneta Alhinho
domingo, 9 de agosto de 2026
domingo, 26 de julho de 2026
As Palavras e o Relógio
As
palavras que ficam por escrever irei pô-las num testamento, junto com os
objectos que são a minha paixão: um CD do Leonard Cohen que o meu filho Bruno
me ofereceu, a fotografia da minha esposa de azul vestida, a guitarra acústica
Ibânez numerada, que a viúva de um amigo me ofertou, os livros que escrevi que
pouca gente leu, os CDs que gravei que pouca gente ouviu, e a caneta que o meu filho me prendou num dos
meus aniversários, reservada para assinar o meu documento de resignação, se
tinta ainda tiver.
Sempre
tive uma relação conflituosa com o meu relógio. Melhor, com esse adorno que
agora confino a uma gaveta da minha mesa-de-cabeceira. A gaveta é útil para a
medicação, as horas também o são sempre que delas tiro o partido das minhas
alegrias, em jeito das memórias. E, quando os ponteiros são como pássaros dados
ao vento, caem as folhas do meu calendário, os homens inscrevem a sua história
com nome de séculos e os nomes das coisas afogam-se nas páginas dos
dicionários. A mim, aqui junto das letras que ninguém lê – até ao dia da sua
celebração, sem censores ou negritude sobre os olhares -, bastam-me o delírio
da imaginação e a consolação dos meus humanos apetites.
Há pouco a
campainha tocou, era o carteiro: tinha uma notificação das Finanças (pensei que
seria por não ter declarado a gaiola da caturra, que nunca teve inquilino), mas
só amanhã abro a carta. A máquina deu sinal de que a roupa estava lavada, onde
a minha camisa predilecta estava ainda baloiçando, essa que uso sem gravata. A
relação conflituosa com o meu relógio alivia-me da percepção de que, afinal de
contas, aquilo que mais me incomoda são os espelhos: quando aparo as
sobrancelhas, ao limpar o pó da moldura que faz lembrar a minha infância. E corro
desenfreado adentro do sonho, atiro, como o pregão do velho amolador, palavras
contra as portas da minha casa, enquanto os objectos do meu desejo são rostos
sem nome onde as rugas fazem lembrar a entranha duma árvore. Um destes dias vou
morar, numa gaveta mais comprida daquela onde o meu relógio repousa. Pode
acontecer que alguém me faça companhia na viagem, nem que sejas tu ou vocês a
quem as minhas mãos oferecem as palavras que ficaram por dizer. Dentro em
breve, vou atrasar as horas, vou tirar proveito do conhecimento das leis
celestes, mas com o problema irresolúvel de não me sentir pecador.
Joaquim Maneta Alhinho

