As
palavras que ficam por escrever irei pô-las num testamento, junto com os
objectos que são a minha paixão: um CD do Leonard Cohen que o meu filho Bruno
me ofereceu, a fotografia da minha esposa de azul vestida, a guitarra acústica
Ibânez numerada, que a viúva de um amigo me ofertou, os livros que escrevi que
pouca gente leu, os CDs que gravei que pouca gente ouviu, e a caneta que o meu filho me prendou num dos
meus aniversários, reservada para assinar o meu documento de resignação, se
tinta ainda tiver.
Sempre
tive uma relação conflituosa com o meu relógio. Melhor, com esse adorno que
agora confino a uma gaveta da minha mesa-de-cabeceira. A gaveta é útil para a
medicação, as horas também o são sempre que delas tiro o partido das minhas
alegrias, em jeito das memórias. E, quando os ponteiros são como pássaros dados
ao vento, caem as folhas do meu calendário, os homens inscrevem a sua história
com nome de séculos e os nomes das coisas afogam-se nas páginas dos
dicionários. A mim, aqui junto das letras que ninguém lê – até ao dia da sua
celebração, sem censores ou negritude sobre os olhares -, bastam-me o delírio
da imaginação e a consolação dos meus humanos apetites.
Há pouco a
campainha tocou, era o carteiro: tinha uma notificação das Finanças (pensei que
seria por não ter declarado a gaiola da caturra, que nunca teve inquilino), mas
só amanhã abro a carta. A máquina deu sinal de que a roupa estava lavada, onde
a minha camisa predilecta estava ainda baloiçando, essa que uso sem gravata. A
relação conflituosa com o meu relógio alivia-me da percepção de que, afinal de
contas, aquilo que mais me incomoda são os espelhos: quando aparo as
sobrancelhas, ao limpar o pó da moldura que faz lembrar a minha infância. E corro
desenfreado adentro do sonho, atiro, como o pregão do velho amolador, palavras
contra as portas da minha casa, enquanto os objectos do meu desejo são rostos
sem nome onde as rugas fazem lembrar a entranha duma árvore. Um destes dias vou
morar, numa gaveta mais comprida daquela onde o meu relógio repousa. Pode
acontecer que alguém me faça companhia na viagem, nem que sejas tu ou vocês a
quem as minhas mãos oferecem as palavras que ficaram por dizer. Dentro em
breve, vou atrasar as horas, vou tirar proveito do conhecimento das leis
celestes, mas com o problema irresolúvel de não me sentir pecador.
Joaquim Maneta Alhinho

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