domingo, 4 de outubro de 2026

FALSIDADE

 

Experimentem perguntar a alguém entre os 20 e os 30 anos qual o defeito de que menos gostam ou com o qual têm mais dificuldades em lidar.

Arrisco-me a dizer que nove em cada dez dirão, à cabeça e sem hesitação, que detestam a falsidade.

A falsidade é o contrário da genuinidade, uma característica, portanto, do que não é verdadeiro.

Dir-se-ia, numa lógica de senso comum, que estes jovens adultos estariam a dizer que não gostavam de mentiras nem de mentirosos, que não gostavam de estilos de vida artificiais, que não gostavam dos diferentes géneros das ficções que entrecruzam a vida da sociedade (do nosso tempo como, provavelmente, de todos os outros).

Dir-se-ia que estariam a dizer o mesmo que anteriores gerações que fizeram da busca da verdade um sentido existencial.

Mas não é bem isso. Quando se tenta investigar o que querem dizer com esta palavra quase fora de moda, descobre-se que aquilo que os preocupa são, sobretudo, as falsas aparências, a desfaçatez, a manipulação, as formas de engano que costumam acompanhar as relações sociais de todos os que procuram afirmar-se, obter vantagens, prestígio ou influência num dado grupo.

O que querem dizer é que não gostam que os outros se “armem”, se façam passar por quem não são ou usem estratagemas poucos claros para obter resultados e benefícios próprios.

Por qualquer razão, a antipatia pela falsidade, que virou cliché geracional, diz-nos, antes de mais, da importância atribuída à capacidade de se assumir tudo e mais um par de botas, de se usar de fraqueza a tocar a coragem, ainda que brutal.

Esta valorização, mesmo que seja apenas discursiva, já que o que é exigido aos outros não é o que se consegue ser e dar, aponta provavelmente um valor emergente num tempo em que se diz que se perderam todos os valores.

Também diz, implicitamente, da consciência, mesmo ténue, de um sentimento de desconfiança arreigado e profundo. O não se poder confiar, o ter de esperar que o amigo ou o amor de hoje seja o oponente ou o inimigo de amanhã.

O viver em sociedade sempre implicou um qualquer grau de representação, de desempenho, mesmo de cinismo. Chamar a isso falsidade e fazer disso um defeito pode ser que seja uma boa noticia.

 

Joaquim Maneta Alhinho