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quarta-feira, 27 de abril de 2016

Azar que é azar nunca vem só!


Há uma clássica superstição que toda a gente conhece, sobre o facto de partir um espelho implicar sete anos de azar.
Esta ideia radica numa outra mais antiga de que o reflexo humano, a imagem devolvida a partir de qualquer superfície refletora, exprimir a própria alma do indivíduo e, nesse sentido, significar, ao ser quebrada, uma quebra na própria identidade, quando não a própria morte.
Se os sujeitos não morressem por quebra de identidade, pelo menos sofriam um período longo de infelicidades várias, os tais sete anos, que, de acordo com muitas tradições, corresponderia ao tempo de um ciclo completo da vida humana.
De superstição em superstição e de mito em mito, vão sobrando para os dizeres quotidianos e as convicções de cada um nós fórmulas interessantes de racionalizar os tempos difíceis que atravessamos.
Num destes dias, nas inevitáveis conversas de café que já não são só sobre o estado do tempo, alguém afirmava, cheio de certezas, que o país atravessava sete anos de azar, já que era esse o tempo das crises.
Numa fase da vida colectiva e individual em que a incerteza paira em redor como se fora um enorme e espesso manto, estas crenças inadvertidamente partilhadas resultam esperançosas.
De um lado temos que as previsões oficiais e oficiosas que a vida, tal como a conhecíamos, acabou. Que a sensação de segurança relativa de que gozávamos, assente num sem número de direitos adquiridos, é agora uma página virada.
Por outro lado, temos ainda expectativas, baixas, mas expectativas.
A vantagem de expectativas baixas é, como se sabe, a de não ter enormes decepções, o que parece francamente irrisório num quadro em que o Contrato Social esgaça por todos os lados. Mas, porque somos humanos, precisamos delas. Precisamos de nos poder projectar no futuro e acreditar que algures no trilho que seguimos encontraremos um almejado conforto.
E a vida continua. Além de continuar, como continua sempre independentemente das conjunturas e das vicissitudes, as pessoas continuam iguais a si próprias, a necessitar de estímulos e alento. Continuam, por isso, em busca de sentidos que consigam compreender. E, convenhamos, sete anos é um bonito número.
Mesmo que também se lembrem, vagamente, de outras tradições que mostrem que sete anos não são um prazo mas apenas um tempo longo de elaboração ou recalcamento: "Sete anos de pastor Jacob servia Labão, pai de Raquel".


                                        

segunda-feira, 11 de maio de 2015

O amigo como inimigo


                                                                                      
Se ficamos mais decepcionados com os nossos amigos do que com os inimigos é porque esperamos receber o bem dos amigos e o mal dos nossos inimigos. Nem sempre, porém, as coisas funcionam assim, pois não? É por esta razão que se previne de que, por vezes, um amigo comportasse como um inimigo e o inimigo age como um amigo.
Quando é que uma censura ou repreensão pode ser um sinal de amor?
O amor não tem só a ver com beijos e palavras doces. O amor, por vezes, obriga-nos a censurar um amigo ou um filho e pode correr o risco de parecer desagradável, condenatório e crítico. Podemos até vir a perder amigos pela nossa sinceridade ao nos expressarmos. Contudo, se não advertirmos os amigos a respeito do que andam a fazer, especialmente se é algo que lhes possa causar dano, então que tipo de amigos somos nós?
Uma censura aberta é também um sinal de que o nosso amor não assenta em ilusões e fingimentos, mas baseia-se na verdade e na confiança.
 Qual pode ser o resultado da confrontação entre amigos?
A imagem do ferro a aguçar-se com o ferro sugere um benefício recíproco. Uma amizade posta à prova por verdadeiro confronto melhorará não apenas a qualidade da amizade, mas também estimulará e fortalecerá a personalidade de ambos. As respectivas armas ganharão mais eficácia. Acabaremos por ficar mais apetrechados para lutas futuras. As pessoas que se refugiam em si mesmas e unicamente nas suas ideias pessoais, e nunca se confrontam com o desafio de opiniões diferentes, não se desenvolverão no conhecimento, nem no carácter.
Já alguma vez recebeu uma censura por alguma coisa que poderia realmente provocar-lhe dano?
Imagine que não recebia advertência nenhuma a tal respeito. Tendo isto em mente, se tivesse de fazer o mesmo em relação a outra pessoa, como poderia fazê-lo de maneira redentora, em vez de maneira condenatória e crítica?

Qual é o seu nível pessoal de abertura e de transparência naquilo que diz? Que nível de desconexão há entre as suas palavras e os seus pensamentos? Acha realmente que uma tal duplicidade pode ser mantida indefinidamente?

sábado, 28 de março de 2015

Vamo-nos arrastando...


Arrastamos os dias como podemos e sabemos. Às vezes encarrilamos em tarefas que, de algum modo, nos divertem; outras vezes sentimos desafios e entusiasmos; por vezes ficamos entristecidos, zangados e infelizes; mas, genericamente distraímo-nos com pequenos acontecimentos e afazeres que esquecemos mal terminam e parecem não deixar qualquer rasto.
Os dias correm com alguma monotonia, ainda que os mais hábeis aprendam a dosear as quantidades certas da rotina que os tranquiliza e da novidade que os desperta e inquieta.
Excepcionalmente, muito excepcionalmente, alguns mergulham em estado de graça.
Vinda de um confim qualquer, indizível e misterioso, chega à consciência uma espécie de energia transformadora que faz a diferença.
Porque tal acontece, tudo o que nos rodeia ganha uma nova e diferente profundidade e nitidez. As cores, os odores, as formas, deixam de ser as conhecidas, as vulgares de sempre e adquirem um tom brilhante como se um manto diáfano de belo cobrisse tudo. As pessoas com que nos cruzamos parecem vivificadas, mais interessantes, humanas e calorosas. As cidades, os prédios, as ruas, os escritórios deixam-se também tocar por essa estranha graça que os transforma em organismos quase vivos, claros e vibrantes. Os problemas por resolver, as dúvidas do costume, as expectativas acalentadas e escondidas, de repente perdem peso, perdem espaço. Uma inefável sensação de bem-estar impregna de leveza e claridade o que pouco antes era amorfo, incolor e mesmo obscuro.
O corpo, o nosso corpo, transforma-se num santuário de prazer. Um prazer beatífico mas pungente que emana em todas as direcções e que, também ele leve e renovado, consegue fazer as pazes com todas as antigas maleitas, todas as imperfeições, todas as insuficiências antes conhecidas e experimentadas.
Alguns associam este estado de graça a acontecimentos específicos como uma paixão amorosa, uma gravidez muito desejada ou uma situação capaz de introduzir ruptura com os sentidos habituais, como por exemplo a sobrevivência a uma doença ou a acidente grave.
Outros sabem que o estado de graça pode acontecer apenas porque sim, eventualmente para nos fazer sentir que viver pode ser, além de um facto de natureza, uma dádiva única que há que celebrar.


Joaquim Maneta Alhinho

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

O menino e a bicicleta azul



Pediu aos pais uma bicicleta e gostava que fosse azul. Nem mais nem menos, azul como a cor do mar.
A primeira bicicleta que teve, tinha três rodas e chamava-se triciclo e aquela que pedira, diziam os pais, iria ter também 3 rodas, a roda grande e duas pequenas atrás para ele se equilibrar e não cair.
Tude certo pensou, desde que fosse azul, como aquela do palhaço equilibrista que tanto o impressionou, nas últimas férias, quando os pais o levaram ao circo do Coliseu. Ida que foi uma aventura, a sua primeira grande aventura, com tigres e leões domados e pacíficos mas que, mesmo assim o assustaram. E os ginastas e trapezistas que voavam de um lado para o outro que até pareciam as gaivotas na praia onde ensaiou os primeiros banhos de mar. Também, as mulheres do circo eram bonitas, como a mãe e a educadora do jardim infantil, mas que faziam ginásticas complicadas em fato de banho, de pé em cima de cavalos brancos que rodopiavam na pista e lhe punham a cabeça a girar sem perceber porquê.
Mas, desta iniciática experiência, o que se lhe fixou mais na memória e que puxava agora à lembrança, foi o tal palhaço de bicicleta azul que fazia uma variedade enorme de piruetas e depressa desmontou parte da bicicleta e ficou só como uma roda e, mesmo assim, saltou uma prancha e parou em cima dela, indeciso se ia para um lado ou para outro e, mais estranho ainda, aterrou numa corda esticada entre dois tripés que os companheiros seguravam bem e só com uma roda andava de trás para a frente e de frente para trás, com uma comprida barra de ferro nas mãos e ficava assim, parado no ar, a receber aplausos da assistência, os dele também, para alegria dos pais que se sentiam gratificados por o miúdo ter gostado do circo.
Veio para casa e, mesmo ainda pelo caminho, pediu uma bicicleta azul como aquela do palhaço. Foi-lhe feita a vontade e o miúdo depressa se transformou num “às do pedal”, à custa de uns tantos arbustos amachucados no jardim da cidade, de algumas negras nos braços e nas pernas e alguns arranhões arrancados do cimento dos passeios. Era uma obsessão pela bicicleta azul que os pais se esforçavam por compreender.
Só quanto tentou imitar o palhaço do circo e se estatelou abruptamente sobre um canteiro de roseiras que o deixaram a sangrar, é que percebeu que a sua bicicleta azul não era igual à daquele palhaço que lhe ficara na memória.

Na vida … (conclua o leitor esta crónica)
E a leitora Carla Ferreira, da Moita, concluiu desta forma:


Na vida todos andamos de bicicleta de maneira diferente e o menino percebeu que o importante era conseguir andar na bicicleta azul, mesmo que não o fizesse tão bem como o palhaço que tentou imitar no circo. Pois ele iria levantar-se e ergue-se de novo quantas vezes cai-se, porque o importante é nunca desistir mesmo que se fique machucado e se estrague o canteiro do vizinho, pois a dor e a persistência é que nos fazem fortes!
                                            



sábado, 24 de janeiro de 2015

A minha fonte de inspiração? As pessoas!


A crónica é um género de escrita ainda hoje de difícil definição.
Começou por ter como tema acontecimentos históricos narrados por ordem cronológica e foi-se transformando, com o evoluir dos tempos, em textos personalizados de comentário e análise das mais diversas situações do quotidiano. Um quotidiano abordado a partir duma perspectiva pessoal em que a formação académica, prática profissional ou conhecimentos específicos do cronista são relevantes, quer no estilo adoptado, quer nos conteúdos escolhidos.
Por se tratar de textos curtos publicados em meios de comunicação social de grande divulgação e terem uma periodicidades intensa, têm habitualmente uma linguagem simples, despretensiosa e mesmo colonial.
Nem sempre o fiz, admito!
Contemporaneamente, a crónica tende a ser mais dissertativa do que narrativa, quer dizer, preocupa-se mais em discorrer ou mostrar um ponto de vista ou uma perspectiva particular sobre um acontecimento, um facto ou até um sentimento, do que descrevê-lo simplesmente.
Vem este arrazoado a propósito de ter em meu poder - umas publicadas e outras por editar - mais de mil crónicas.
Ao longo de tantos anos a escrever, dizem-me que construo textos que interessam às pessoas mas também que são úteis. Dizem-me também, que aquilo que escrevo suscita reacções, identificações, reflexões e até decisões relevantes de quem as lê. Fico imensamente feliz, por isso!
Deixem-me partilhar convosco a minha grande fonte de inspiração: as pessoas.
As pessoas com quem me cruzo na vida social, laboral e na rua. O que as pessoas dizem, as suas interrogações, preocupações e reflexões. As suas distorções e inquietações, as suas mágoas e vitórias, as suas queixas, as suas formas de lidar com os problemas e resolvê-los, os seus momentos de satisfação e gloria.
São as pessoas vulgares, as suas sensações, emoções e sentimentos que tento captar e trazer até vós na esperança de que nas costas dos outros vejamos as nossas.




Joaquim Maneta Alhinho

terça-feira, 21 de outubro de 2014

A fantasia da fuga

Uma das fantasias recorrentes das pessoas cansadas, fartas da vida que levam e de uma sequência de dias sem graça nem luz, é a de poderem fugir.
A fantasia da fuga não é só de crianças que se sentem mal-amadas ou de adolescentes zangados com limites que lhes tentam impor.
Também não tem que ver com aqueles que assumidamente querem partir em busca de uma vida melhor, de maior riqueza ou perseguindo um sonho que tem um nome e um destino certo.
Esta ideia, esta ida em fuga para um lugar distante, obedece ao pressuposto de que há um sítio algures em que é possível estar melhor ou até bem. Como se a distância ou a geografia encerrassem uma qualquer magia curandeira.
Os lugares de refúgio idealizados, contra todas as expectativas, não são praias turísticas nas Caraíbas, cidades futuristas, estâncias requintadas ou grandes metrópoles de encontro de culturas.
Os lugares de fuga, de reparação de dores íntimas ou de recuperação de sentidos de vida costumam ser sítios longínquos, não tanto pela geografia, mas sobretudo pela distância cultural, pelo arcaísmo estrutural ou pelo estado de desgraça geral.
Fugir para longe, procurar uma outra forma de estar é, paradoxalmente, quase sempre feito no sentido da busca de mundos pouco desenvolvidos e quase sem recursos.
Como se terras sofridas e gentes de baixa condição de vida permitissem valorizar o que se tem, o que se é, e passa despercebido ou é ignorado entre iguais.
Enquanto os que querem partir para um sítio determinado em busca de riqueza ou esplendor partem mesmo, os outros sonham acordados, imaginam incansavelmente e quedam-se no mesmo lugar, ameaçando a fuga, invocando o cansaço, inventando razões para ficar, descobrindo legitimidades claras para justificar partir.
Ainda assim, a fantasia da fuga, a ideia persistente de que há sempre uma porta de saída, um sítio que espera por nós e em que tudo ficará bem para sempre, não é uma inutilidade entre outras.
Pelo contrário, é o acreditar – ainda que leve, muito levemente – que se permanece porque se quer, que mais um dia ou dois talvez não façam grande diferença no eventual grande destino que lá longe se poderia ter, e serve de anteparo à frustração e de defesa a maiores depressões.
É sempre bom ter um lugar ou um sonho de recurso.


Joaquim Maneta Alhinho

domingo, 24 de agosto de 2014

Não somos folhas ao vento...


Diz-se que a vida moderna é, por demais, cansativa e stressante. E é.
Mesmo sendo verdade que a maioria de nós não tem de se confrontar com esforços físicos duríssimos, o que cansa e desgasta costuma andar à volta de uma vaga sensação de sobressalto como se houvesse uma qualquer urgência em pano de fundo ou como se tivéssemos esquecido qualquer coisa que sabemos ser importante.
Com poucas excepções, parece que as pessoas se dividem entre os que não têm tempo para nada e os que não sabem o que hão-de fazer com o tempo.
Os primeiros, os que não têm tempo, porque o rol de tarefas é mais extenso do que aquilo que conseguem cumprir, com frequência mergulham numa calda de irritação em que quaisquer contratempos ganham foros de problema. Os atrasos, as tarefas proteladas, as coisas que não funcionam ou funcionam mal, o que não se faz e se devia ter feito, vão-se acumulando numa espécie de vertigem de incapacidade e descontrolo, suficiente para transformar os dias em embates penosos.
Acorda-se cansado, corre-se o que se pode durante todo o dia e chega-se à noite exausto e com a sensação de que no dia seguinte será exactamente igual.
Os outros, os que lhes sobra tempo, por não trabalham por reforma ou desemprego, ou os que não têm família, grandes compromissos ou grandes interesses, frequentemente parecem disponíveis para complicar pequenas coisas em que os outros não reparam ou envolver-se, com excessiva ansiedade, em tarefas, relações ou causas que se transformam também para climas de frustração, incompletude ou incompreensão. Os dias correm também tensos, também cinzentos.
Uns e outros como que esperam que, por magia, tudo se componha. Que a calma e a tranquilidade os venham possuir. Que as coisas parem de acontecer ou comecem a acontecer de um outro modo mais satisfatório e gratificante.
Sendo importante todo e qualquer acontecimento de vida, o facto é que não é suposto que sejamos folhinhas ao vento nem caixa-de-ressonância do que se passa à nossa volta.
Suposto mesmo é que busquemos e consigamos activamente não ceder a contágios emocionais, não nos deixarmos arrastar pelas circunstâncias e usarmos tudo o que aprendemos, desde sempre, para fazer aquilo que se acredita que as pessoas querem: viver o melhor possível.


Joaquim Maneta Alhinho

domingo, 20 de julho de 2014

Os filhos são pais da morte dos seus pais


 Há uma quebra na história familiar onde as idades se acumulam e se sobrepõem e a ordem natural não tem sentido: é quando o filho se torna pai do seu pai.
É quando o pai envelhece e começa a trotear como se estivesse dentro de uma névoa. Lento e impreciso.
É quando aquele pai que segurava com força a nossa mão já não tem como se levantar sozinho. É quando aquele pai, outrora firme e intransponível, enfraquece de vez e demora o dobro do tempo para sair do seu lugar.
É quando aquele pai, que antigamente mandava e ordenava, hoje só suspira, só geme, só procura onde é a porta e onde é a janela - tudo é corredor, tudo é longe.
É quando aquele pai, antes disponível e trabalhador, fracassa ao tirar a sua própria roupa e não se lembra dos medicamentos que tem para tomar.
E nós, como filhos, não faremos outra coisa senão trocar de papel e aceitar que somos responsáveis por aquela vida. Aquela vida que nos gerou depende da nossa vida para morrer em paz.
Todo o filho é pai da morte de seu pai.
Ou, quem sabe, a velhice do pai e da mãe seja curiosamente a nossa última gravidez. O nosso último ensinamento. Fase para devolver os cuidados que nos foram confiados ao longo de décadas, de retribuir o amor com a amizade da escolta.
E assim, como mudamos a casa para receber quem nasce, tapando tomadas e colocando cercas, vamos alterar a rotina dos móveis para criar espaços para os nossos pais.
Uma das primeiras transformações acontece na casa de banho.
Seremos pais de nossos pais na hora de colocar uma barra de apoio no chuveiro.
A barra é emblemática. A barra é simbólica. A barra é inaugurar um cotovelo das águas.
Porque o chuveiro, simples e refrescante, agora é um temporal para os pés idosos dos nossos protectores. Não podemos abandoná-los em nenhum momento, inventaremos os nossos braços nas paredes.
A casa de quem cuida dos pais tem os braços dos filhos pelas paredes. Os nossos braços estarão espalhados sob a forma de corrimões.
Envelhecer é andar de mãos dadas com os objectos, envelhecer é subir escadas mesmo sem degraus.
Seremos estranhos na nossa residência. Observaremos cada detalhe com pavor e desconhecimento, com dúvida e preocupação. Seremos arquitectos, decoradores e engenheiros frustrados. Como não previmos que os pais um dia adoecessem e precisassem de nós?
Feliz do filho que é pai do seu pai antes da morte e triste do filho que aparece somente no funeral (quando acontece…) e não se despede dele um pouco em cada dia.
No hospital, a enfermeira fazia a manobra da cama para a maca, repondo os lençóis, quando o Zé gritou:
— Deixe que eu ajudo…
Reuniu todas as suas forças e pegou pela primeira vez o seu pai ao colo.
Colocou o rosto do seu pai contra o seu peito.
Ajeitou nos seus ombros o pai consumido pelo cancro: pequeno, enrugado, frágil, tremendo.
Ficou nos seus braços um bom tempo, um tempo equivalente à sua infância, um tempo equivalente à sua adolescência, um tempo interminável.
Embalou o pai de um lado para o outro.
Aninhou o pai.
Acalmou o pai.
E apenas dizia, sussurrando:
— Eu estou aqui, estou aqui, pai!
O que um pai quer ouvir no fim da sua vida é que o seu filho está ali.




Joaquim Maneta Alhinho

sábado, 28 de junho de 2014

A dor do abandono

Era uma manhã de sol quente e céu azul, quando o caixão contendo um corpo sem vida foi baixado à sepultura. De quem se trata? Quase ninguém sabe. Poucas pessoas acompanham o féretro. Ninguém chora. Ninguém sentirá a falta dela. Ninguém para dizer adeus ou até breve.
Depois que o corpo desocupou o quarto do asilo, onde aquela mulher passou boa parte da sua vida, a responsável pela limpeza encontrou numa gaveta ao lado da cama, umas anotações. Um diário sobre a dor... Sobre a dor que ela sentiu por ter sido abandonada pela família num lar para idosos... Talvez o sofrimento fosse muito maior, mas as palavras só permitem extravasar uma parte desse sentimento, gravado nalgumas frases:
Onde andarão os meus filhos? Aquelas crianças sorridentes que embalei no meu colo, alimentei com o meu leite, cuidei com tanto zelo, onde estarão? Estarão tão ocupados que não possam visitar-me, ao menos para dizer olá, mãe? Ah!... Se eles soubessem como é triste sentir a dor do abandono... A mais deprimente solidão... Se ao menos eu pudesse andar...
Mas dependo das mãos generosas destas raparigas que me levam todos os dias para apanhar um pouco de sol no jardim... Jardim que já conheço como a palma da minha mão.
Os anos passam e os meus filhos não entram por aquela porta, de braços abertos, para me envolverem com carinho, com afectos...
Os dias passam... E com eles a esperança vai-se... No começo, a esperança alimentava-me, ou eu a alimentava, não sei... Mas, agora... Como esquecer que fui esquecida? Como engolir esse nó que teima em ficar na minha garganta, dia após dia?
Todas as lágrimas que chorei não foram suficientes para desfaze-lo... Sinto que o crepúsculo desta existência se aproxima... Queria saber dos meus filhos... Dos meus netos... Será que ao menos ainda se lembram de mim? A esperança, agora, parece estar atrelada aos minutos... Que a arrastam sem misericórdia para bem longe de mim...
Às vezes, em sonhos, vejo um lindo jardim, que transcende os muros deste albergue e se abre em caminhos floridos que levam a outra realidade, onde braços afectuosos estão à minha espera com amor e alegria... Mas, quando acordo, é a minha realidade que eu vejo... Que eu vivo... Que eu sinto... Um dia alguém me disse que a vida não se acaba num túmulo escuro e silencioso... Que a vida continua após a morte, de uma outra forma... Mas com certeza a minha matéria, a minha mente, o meu eu, desta vida que vivo agora, com o nome que tenho, nunca mais existirá! E quando a morte chegar, só vai restar a saudade que com o passar do tempo se ameniza... (se é que alguém vai sentir saudades minhas, já que não sentiram enquanto ainda estou viva neste asilo...)
Sinto que a minha hora está a chegar... Depois, quando eu partir, gostaria que alguém encontrasse estas minhas anotações e as divulgasse. E que elas pudessem tocar os corações dos filhos que internam os seus pais em asilos e nunca os visitam... Que eles possam saber um pouco sobre a dor de alguém que sente o que é ser abandonado... Pensem que a cada pai e a cada mãe Deus perguntará: O que fizestes do filho confiado à vossa guarda? E aos filhos: O que fizestes aos vossos pais?



Joaquim Maneta Alhinho

quarta-feira, 18 de junho de 2014

A culpa morre sempre solteira...

Popularmente afirma-se que “a culpa morre sempre solteira”, querendo com isso dizer que, voltas dadas, contas feitas, não se consegue descobrir o par à altura. Não se é capaz de descobrir o tal culpado, a criatura que começou a intriga ou o crime, o responsável último da acção nefasta.
Se nem que seja o partir de um copo tenha de ter um culpado, o facto é que se arranjam fórmulas mágicas de aliviar responsabilidades e explicar, com indiscutível mérito e razoável imaginação, que foi por causa de um outro, que o copo não devia estar ali, que alguém o pôs ali de propósito para ser partido e arranjar uma situação desagradável.
Ficamos, pois, com um copo partido e um extraordinário complô, que, não explicando coisa alguma, dilui responsabilidades e anula culpas.
Se com copos isto é assim, imaginem com o resto.
A questão, porque de facto o ser assim levanta, pelo menos, uma importante pergunta, é a de saber por que é que parece tão difícil assumir que cometemos erros, nos enganamos, avaliamos mal a situação, desempenhámos ineficazmente a tarefa de que estávamos incumbidos, fomos arrogante, desprezámos indicadores vitais, não tínhamos razão, desmotivámo-nos, desinteressámo-nos, facilitámos, confiámos em quem não devíamos, não tivemos atenção, enfim, o que se queira, sempre no território das desculpas que, ainda assim, não depreciem o mea culpa fundamental. Percebe-se que os actos criminosos ou delinquentes se arredem desta lógica.
Não se percebe por que é que assuntos comezinhos e quotidianos tenham de ser enrodilhados em histórias compridas e mal contadas, em que os factos se distorçam e o que apareça como produto final seja uma nebulosa de mal-entendidos, zangas pessoais, acusações mútuas, afirmações desgarradas de princípios, que normalmente não vêm nada a propósito.
Dir-se-ia que se confunde a assunção da culpa com o castigo. Que parece que se acredita que basta dizer-se que se errou para merecer a sanção colectiva do desamor, do desrespeito ou do desprezo, e que, por essa via, acreditando que a sorte de um homem é escapar, vale tudo para instalar a dúvida e fugir à punição. Ou então, e igualmente grave, que obliteramos o senso de responsabilidade e não o desenvolvemos o suficiente para viver pacatamente em sociedade.
Chegados aqui, parece que temos de concluir uma de duas coisas: ou, de facto, somos todos educados, e educamos com tantos “panos quentes” que assumir o que quer que seja de motu proprio é um exercício demasiado sofisticado; ou tememos mais a crítica social do que estimamos a velha e boa ideia de termos a consciência tranquila.
Em qualquer dos casos, venha o Diabo e escolha.


Joaquim Maneta Alhinho

quarta-feira, 21 de maio de 2014

D. Perpetua e o meio ambiente

Na fila do supermercado, o caixa diz a uma senhora idosa:

- A senhora deveria trazer o seu próprio saco para as compras, uma vez que os sacos de plástico não são amigos do ambiente.
A senhora pediu desculpas e disse:
 - Não havia essa “onda verde” no meu tempo…
O empregado respondeu: - Esse é exactamente o nosso problema hoje, minha senhora.
A sua geração não se preocupou o suficiente com o nosso ambiente.
- Você está certo - responde a velha senhora – a nossa geração não se preocupou adequadamente com o ambiente.

Naquela época, as garrafas de leite, de refrigerante e cerveja eram devolvidos à loja. A loja mandava de volta para a fábrica, onde eram lavadas e esterilizadas antes de cada novo uso.

Realmente não nos preocupávamos com o ambiente no nosso tempo. Subíamos as escadas de madeira ou de pedra, porque não havia escadas rolantes nas lojas e nos escritórios. Caminhávamos até ao comércio, ao invés de usar o nosso carro de 300 cavalos de potência a cada vez que precisamos de nos deslocar à loja a dois quarteirões da nossa casa.

Nós não nos preocupávamos com o ambiente. Até então, as fraldas de bebés eram lavadas, porque não havia fraldas descartáveis. O secar da roupa era feito por nós mesmos, não nestas máquinas bamboleantes a 220 volts. A energia solar é que realmente secavam as nossas roupas. Os meninos pequenos usavam as roupas que tinham sido dos seus irmãos mais velhos e não roupas novas de marca.

Mas é verdade: não havia preocupação com o ambiente, naqueles dias. Naquela época tínhamos somente uma TV ou rádio em casa e não uma TV em cada quarto. E a TV tinha uma tela do tamanho de um lenço, não um plasma do tamanho de um estádio; que depois será reciclado de que forma?

Quando embalávamos algo um pouco frágil para enviar pelo correio, usávamos jornal amassado para protegê-lo, não plástico bolha ou paletes de plástico que duram cinco séculos para começar a degradar.

Naqueles tempos não se usava um motor a gasolina apenas para cortar a relva, era utilizado uma tesoura que exigia músculos. O exercício era extraordinário e não precisávamos de ir a um ginásio e usar as passadeiras e outras máquinas que também funcionam a electricidade.

Mas você tem razão: não havia naquela época preocupação com o ambiente. Bebíamos directamente da fonte, quando estávamos com sede, em vez de usar copos plásticos e garrafas que agora poluem os oceanos.

As canetas eram recarregadas com tinta as vezes que queríamos sem necessidade de comprar outra. Amolávamos as facas e as tesouras, ao invés de lançar fora todos os aparelhos “descartáveis” e poluentes só porque a lâmina já não está afiada.

Na verdade, tivemos uma “onda verde” naquela época. Naqueles dias, as pessoas apanhavam os autocarros e os meninos iam a pé para a escola, ao invés de usar a mãe como um serviço de táxi 24 horas por dia. Tínhamos só uma tomada em cada quarto, e não um quadro de tomadas em cada parede para alimentar uma dúzia de aparelhos. E nós não precisávamos de um GPS para receber sinais de satélites a milhas de distância no espaço, só para encontrar a pizzaria mais próxima.

Então, não é risível que a actual geração fale tanto em "meio ambiente", mas não quer abrir mão de nada e não pensa viver um pouco como na minha época?




Joaquim Maneta Alhinho

sábado, 26 de abril de 2014

A vida são dois dias...



Certamente já ouviu este dito popular. Ao pronunciá-lo, as pessoas querem transmitir-nos a ideia de que tudo passa muito rápido, portanto, há que aproveitar enquanto cá andamos, valorizando o que temos de bom e colocando "para trás das costas” os aspectos menos felizes. Mas, em alturas de crises como esta que estamos a atravessar, é difícil lembrarmo-nos disso. Olhamos à nossa volta e vemos tudo negro. É como se colocássemos um pano escuro à frente dos olhos, que nos impedem de ver os lados bonitos do dia. Ficamos irritados quando os amigos nos dizem “não estejas assim, já viste que existe gente em pior condições que tu”...pois, pensamos nós, com o mal dos outros...
Vivemos tão intensamente os problemas que tudo o resto deixa de fazer sentido. Este tema lembra-me o filme A vida é bela, que considero uma verdadeira obra-prima. Talvez até esteja um pouco sugestionada, mas, mostra-nos como, apesar dos problemas, se consegue manter o optimismo e transmitir uma mensagem de esperança. Não foi também por acaso que o famoso psicoterapeuta Victor Frankl desenvolveu a sua teoria, procurando encontrar um sentido para a vida, durante a estada num campo de concentração nazi. É fantástico pensar como o ser humano consegue mobilizar energias a ponto de ultrapassar as mais duras provações, sempre de cabeça erguida. Estes exemplos dão-nos esperança e é verdade que “enquanto há esperança, há vida!”. A manutenção da esperança repercute-se até a nível físico. Está hoje provado que somos mais do que um corpo, pelo que os aspectos psicológicos têm um grande peso, mesmo no que concerne ao adoecer corporal. Deixam-se vencer pela doença, baixando os braços, desistindo até de viver e não conseguem ultrapassar os obstáculos que vão surgindo. Alguns estudos feitos em Portugal têm mostrado que somos um país de deprimidos, que somos os maiores consumidores de anti-depressivos e ansioliticos. A política deixou de constituir um pólo de interesse, o desemprego e o custo de vida são uma constante sempre em crescimento, as desistências da escola também, só nos alegramos com os jogos de futebol, caso contrário andamos tristonhos e enfadados com tudo e todos. O que nos resta afinal? Lamentarmo-nos, é claro. Mas, o lamento, por si só, não resolve nada. É como viver permanentemente em círculos, sem sairmos do lugar. Ou, como eu costumo dizer, passamos a vida a correr atrás de nós próprios e nunca nos encontramos. Há que encontrar soluções, operar mudanças na nossa vida, mesmo que pequeninas, porque desse somatório pode resultar uma sociedade bastante melhor e mais optimista.
É certo que não podemos viver num permanente carnaval mas, enquanto sambamos, carregamos energias. Existem inúmeras festas e romarias por este país fora, nesta altura do ano. Porque não as aproveitar e as utilizar de forma a encarar o futuro de uma maneira mais positiva. Façam-me um favor...Sejam felizes!



                    Joaquim Maneta Alhinho                          

segunda-feira, 7 de abril de 2014

O tempo e as máquinas



 Se são muitos os pais que se preocupam com o uso que os seus filhos, infantes e adolescentes, dão às horas que passam nos seus computadores, são bastante menos os que se ocupam, de facto, com o assunto.
A maioria destes pais, provavelmente, nem sabe bem o que pode ou deve fazer nem quais os limites que tem de estabelecer ao uso de um instrumento tão propagado e louvado.
Exactamente porque o uso destes aparelhos aparece envolto numa aura de benefícios imensos, sem os quais, aliás, parece não ser possível crescer e progredir, está fora de causa responsabilizá-los pelos usos indevidos a que podem ser sujeitos. Aparentemente, os computadores transformaram-se em utensílios básicos de estudo e conhecimento com inevitáveis efeitos secundários, tão descritos quanto pouco avaliados. Ainda assim, todos sabem nomear os tais usos indevidos que variam entre as horas a jogar e as horas de eventuais contactos considerados como perniciosos e, “desencaminhadores”. Como pano de fundo dos maiores medos parentais, aparece o acesso a sítios em que o sexo seja o motivo de encontro e conversa, com as inerentes fantasias, muito promovidas por séries de televisão, de que o respectivo rebento se cruze com um serial killer, com uma organização pedófila, ou tão simplesmente com um exibicionista versão “ciber” que, ainda assim, destapa uma diferente espécie de gabardina.
Com todas as vantagens e desvantagens das maquinetas, tenho para mim que nem vale a pena complicar nem desistir de estabelecer limites neste campo como em todos os outros.
O maior problema do uso dos computadores pelos mais novos não é o que lá se encontra, porque apenas concentra e espelha aquilo que existe, e também se encontra, nos outros mundos menos virtuais. O maior problema é mesmo o tempo despendido: a teclar, a jogar, a pesquisar, a fazer o que quer que seja que se aproxime da obsessão e diminua de forma significativa o investimento no mundo que gira à volta.
Apenas porque a vida é sempre, aqui e agora, e o virtual um espaço de recurso, inverter os termos da valorização facilita o que mais tememos: ficar isolados e descobrir aí um enorme sentimento de solidão.


                                                      Joaquim Maneta Alhinho

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Azar que é azar nunca vem só.

Há uma clássica superstição que toda a gente conhece, sobre o facto de partir um espelho implicar sete anos de azar.
Esta ideia radica numa outra mais antiga de que o reflexo humano, a imagem devolvida a partir de qualquer superfície refletora, exprimir a própria alma do indivíduo e, nesse sentido, significar, ao ser quebrada, uma quebra na própria identidade, quando não a própria morte.
Se os sujeitos não morressem por quebra de identidade, pelo menos sofriam um período longo de infelicidades várias, os tais sete anos, que, de acordo com muitas tradições, corresponderia ao tempo de um ciclo completo da vida humana.
De superstição em superstição e de mito em mito, vão sobrando para os dizeres quotidianos e as convicções de cada um nós fórmulas interessantes de racionalizar os tempos difíceis que atravessamos.
Num destes dias, nas inevitáveis conversas de café que já não são só sobre o estado do tempo, alguém afirmava, cheio de certezas, que o país atravessava sete anos de azar, já que era esse o tempo das crises.
Numa fase da vida colectiva e individual em que a incerteza paira em redor como se fora um enorme e espesso manto, estas crenças inadvertidamente partilhadas resultam esperançosas.
De um lado temos que as previsões oficiais e oficiosas que a vida, tal como a conhecíamos, acabou. Que a sensação de segurança relativa de que gozávamos, assente num sem número de direitos adquiridos, é agora uma página virada.
Por outro lado, temos ainda expectativas, baixas, mas expectativas.
A vantagem de expectativas baixas é, como se sabe, a de não ter enormes decepções, o que parece francamente irrisório num quadro em que o Contrato Social esgaça por todos os lados. Mas, porque somos humanos, precisamos delas. Precisamos de nos poder projectar no futuro e acreditar que algures no trilho que seguimos encontraremos um almejado conforto.
E a vida continua. Além de continuar, como continua sempre independentemente das conjunturas e das vicissitudes, as pessoas continuam iguais a si próprias, a necessitar de estímulos e alento. Continuam, por isso, em busca de sentidos que consigam compreender. E, convenhamos, sete anos é um bonito número.
Mesmo que também se lembrem, vagamente, de outras tradições que mostrem que sete anos não são um prazo mas apenas um tempo longo de elaboração ou recalcamento: "Sete anos de pastor Jacob servia Labão, pai de Raquel".

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

STOP! Vamos arrumar as ideias?

E agora que o Inverno chegou, o afã do Natal passou e como que se iniciou outra fase do ciclo, preparemo-nos para ela.
Trocado por miúdos, estas nossas cíclicas preparações para o que há-de vir são uma forma esperta, diga-se, de deitar para trás das costas o que de desagradável aconteceu. De vez em quando precisamos de arrumar o que desarrumámos, deitar fora o lixo acumulado, limpar armários de recordações e gavetas de sonhos.
Precisamos de nos centrar no hoje, de projectar o que há-de ser a próxima estação, os novos objectivos, os melhores percursos. Precisamos de nos livrar de pesos mortos, de preocupações ruminadas, de angústias recorrentes e presas a pessoas ou a acontecimentos.
Por mais que tentemos fazer de outra maneira, caímos sempre na armadilha de nos enchermos, a nós ou à nossa vida, de tarecos e inutilidades, de rancores e assuntos pendentes, de adiamentos e oportunidades goradas.
Precisamos, por isso, de tempos de paragem e arrumação mental, de intervalos de descanso ou de reorganização em que, numa espécie de faz de conta, deitemos fora, com os objectos que já não são prestáveis, os sentimentos do mesmo tipo.
Se aprendemos, mais ou menos, a encarar os acontecimentos como um fluxo contínuo que temos de gerir o melhor possível e independentemente da valoração positiva ou negativa que lhes atribuíamos, o facto é que tendemos a ficar incrustados em algum deles, como se uma dada situação imprimisse uma direcção e marcasse um caminho mais forte que nós.
Não que valha a pena assumirmos que conseguimos tudo o que temos na mão e na vontade o destino que há-de vir. A noção das proporções é capaz de não fazer mal a ninguém e servir, em muitos casos, como couraça defensiva para sonhos de glória e deslumbramentos adolescentes que acarretam muito mais frustação que prazer.
Mas, entre a desistência em nome do que já ninguém recorda e a euforia exacerbada em torno das maravilhas que hão-de vir, é provável que, com algum esforço, consigamos arranjar um espaço que nos vá bem e uma forma de estar que faça da nossa vida um acontecimento com sentido.
É por isso que, de vez em quando, como agora, paramos, arrumamos, deitamos fora, começamos novas agendas e prometemos que vamos fazer e ser diferentes e melhores.
Mesmo que ninguém note, mesmo que depois, nos tempos de balanço, não haja muito a assinalar como ganho, parece que estes cíclicos momentos de preparação para o que há-de vir são, em si mesmos, bons momentos.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Somos minúsculos...

As muitas coisas que não podem acontecer e, no entanto, acontecem, informam-nos da fragilidade do mundo que fomos e vamos construindo.
É um mundo de equilíbrios delicados e de muito betão grosseiro, comandado por redes informáticas que colapsam porque um mteorito inconsciente rasou um satétile ou a energia eléctrica se vai abaixo por razões mais ou menos obscuras.
Somos tão complexos nuns assuntos como somos rudimentares noutros e caminhamos no fio da navalha com a leveza de quem não sabe, com rigor, o que faz, ou não mede, completamente, a extensão da consequência dos seus actos.
O que não pode acontecer, e no entanto acontece, diz-nos da exacta distância que existe entre o mundo conceptual, feito de ideias magníficas, de pensamentos organizadores e, normalmente, também grandiosos, e um mundo real atamancado como é possível.
O mundo real, ao contrário dos mundos conceptuais, não é um mundo do autor. Não tem um princípio, um meio e um fim, não ocorre em sequências lógicas, não possui estrutura narrativa, não se move carregado da louvada objectividade e nem sequer possui, as mais das vezes, uma qualquer direccionalidade.
O mundo real é um sítio estranho, mesmo que familiar, feito de paragens e de arranques bruscos, de evoluções, involuções e voltinhas para distrair, de desvios tortuosos, de negócios indizíveis. Dele, às vezes, apetece dizer que mais parece uma manta de retalhos mal amanhada.
O mundo real é um mundo de construção, desconstrução, criação e decadência permanentes e simultâneas. Um mundo que permite todas as desarrumações e desorganizações, mesmo as que não conseguimos imaginar.
As muitas coisas que não podem acontecer, e no entanto acontecem, como sejam alguns morrerem de fome ou de frio, com falta de assistência em situações extremas ou por mero desinteresse dos que estão à volta, servem para que todos os outros percebam a debilidade orgânica das nossas superestruturas hipersofisticadas. Mostram-nos a necessidade de ganharmos a distância emocional que permite a não transformação dos dias em exercícios catárticos entre a indignação, a revolta e a esperança, todas tão inconsequentes como sistemáticas.
As muitas coisas que não podem acontecer e, no entanto, acontecem e cobrem todas as instituições que criámos de ridículo e a nós próprios de vergonha, estão aí todos os dias a lembrarem-nos a nossa real dimensão.
Que é minúscula, é claro!

sábado, 27 de julho de 2013

A alegria do regresso a casa

Ao fim de um dia de trabalho, de preocupações, de luta, atirado ao mundo ilimitado de interesses e ambições, sabe bem aquela expectativa de paz, de aconchego, do nosso pequeno mundo entre quatro paredes.
Tenho uma pena infinita daqueles que não podem voltar, ou não têm tecto onde se abrigar. São como pássaros que tivessem que permanecer em vôo, sem um embalo de um ramo, ou a quentura de um ninho.
Na pressa do retorno, no fim da jornada, em plena rua, nos bancos das praças, os vultos indigentes dos que não voltam, dos que terão de ficar, dos que veêm chegar a noite, indiferentes ao estranho burburinho humano que lembra o dos pardais, nas árvores da cidade.
Então, não consigo evitar que um pensamento amargo turve o meu apressado egoísmo e uma tristeza inevitável esvoaça por momentos como uma borboleta negra que entrasse por uma janela aberta.
Todos nós, diariamente, ao entardecer, somos como marinheiros de nós mesmos; navios que se avizinham do porto de origem, ansiamos por avistar a paisagem do coração, por encontrar os que nos são queridos, os que justificam as partidas de todos os dias, o quotidiano exílio do trabalho.
Sou um homem que acha que, até nas viagens de puro prazer, a grande alegria é o regresso a casa.

sábado, 15 de junho de 2013

Das vacas gordas às esqueléticas...

O nosso admirável mundo sempre foi pleno de contradições e assimetrias.
Caracteristicas essas que têm sido consideradas como bases em que assentam os mais relevantes e violentos conflitos que atravessam tempos e latitudes. Daí que o desenvolvimento civilizacional em que alinhámos a partir de uma fase a que passámos a chamar Modernidade se tenha voltado para ideias promotoras de valores conducentes ao seu esbatimento.
Essas ideias, que têm sofrido transformações e ajustamentos e não as traves-mestres da nossa organização social, mais coisa menos coisa, vão no sentido de valorizar o significado da vida e dignidades humanas.
Mesmo que depois demos conta que implementar essas ideias consensuais nas práticas quotidianas seja uma tarefa nunca acabada, o facto é que as passamos de geração em geração como boas e a maioria de nós, pelo menos de vez em quando, aflige-se de forma consequente com as contradições e assimetrias que fazem de uns seres humanos filhos e de outros enteados.
Em época assumidamente de vacas magras, talvez já esqueléticas, aparece, no entanto, um discurso estapafúrdio sobre a crise.
Alguns defendem que a crise não existe, porque as praias estão cheias, os festivais de Verão também, os iPhone e outros derivados vendem como se fossem precisos e toda a gente está na rua a passear como se não houvesse razões de preocupação.
A acrescentar aos argumentos, ainda se pode invocar as casas caras e os carros potentes que se continuam a vender bem e, já agora, as lojas cheias nos saldos, os centros comerciais sempre a crescer, os restaurantes e os espectáculos que vão tendo público.
Isto para não falar nos ordenados dos gestores públicos ou dos futebolistas, de uma ou outra festa de arromba ou das viagens que algumas pessoas populares fazem nas férias.
Por qualquer extraordinária razão, agarra-se nas sitauações que exemplificam o excepcional ou o estouvado para generalizar e não concluir o óbvio: que hoje como sempre continuam a existir de forma acentuada contradições e assimetrias.

sábado, 8 de junho de 2013

Desorganizados, Trapalhões e Desarrumados

A organização, seja do que for, é um permanente esforço de luta contra o caos. Nessa medida, é também, de um ponto de vista colectivo e global, o garante da existência das sociedades humanas com as suas múltiplas e diversas culturas e civilizações.
De um ponto de vista mais individualizado, sabemos todos que a nossa própria organização - das ideias em primeiro lugar, e depois das tarefas, das rotinas, das prioridades, dos afectos, dos espaços, dos objectos - é, se não uma condição de sobrevivência, pelo menos um instrumento poderoso da gestão de uma vida que se quer de alguma qualidade.
Enquanto povo, temos fama e proveito de sermos desorganizados. Se somos do mais eficaz que se pode encontrar em situações de crise e de ruptura, se nos desenvencilhamos como ninguém em situações muito difíceis ou problemáticas, se quando tudo está perdido conseguimos descobrir a luz ao fundo do túnel, parece que no quotidiano somos trapalhões, dessarrumados, confundindo de forma sistemática e descarada a nuvem com Juno.
Como entretanto a vida não é um filme de acção, daqueles em que o relógio ou a ampulheta aparecem a assinalar o escoar de um tempo limitado, em que a situação ou mesmo o mundo é salvo no último minuto, temos dificuldades sérias em parecermos, e sermos, pessoas descontraídas que sabem o que têm a fazer, e o fazem, sem excessivos sobressaltos nem necessidade de rasgos espectaculares.
Porque a vida não tem que ser, nem deve ser, uma luta contra moinhos de vento, fica deslocado o clima de combate, resistência, guerrilha urbana e o mais que se verifica a propósito de tudo e nada.
Na actual circunstância, em que um conjunto de mudanças tem que ser feito de forma a adequar estruturas poeirentas e rançosas a realidades excessivamente lubrificadas, o que emerge, o que põe toda a gente à beira de um ataque de nervos, é a óbvia desorganização.
O diz-que-diz, o anda-para-a-frente e depois-para-trás ou para-o-lado, o embandeirar-em-arco com coisas miúdas, o tentar controlar através de procedimentos que enfermam dos mesmos defeitos do que se tenta mudar, resultam como se vê: mal.

Nota: Esta crónica não se está em concordância com o Novo Acordo Ortográfico por vontade expressa do seu autor.

                                                   Joaquim Maneta Alhinho